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quarta-feira, 23 de novembro de 2022

O Dao e a minha caminhada alquímica Post 11 - A importância da Contemplação

 Para quem, como eu, decide partir esta caminhada espiritual, há ferramentas que temos sempre de levar connosco. Como o alpinista leva casaco, gorro, luvas e todas as ferramentas de que necessita, também nós precisamos de ferramentas para esta árdua caminhada.

O caminho espiritual está cheio de espinhos e obstáculos, é inteligente estarmos bem preparados para o que aí vem.

Contemplação

A contemplação sempre foi uma forma de ajudar o caminhante espiritual. Uma forma de levantar o ânimo, de manter as forças, o alento. A contemplação pode começar por ser uma ferramenta motivacional, mas creio que tem capacidade para ser muito mais do que isso.

Podemos aprender a contemplar a paisagem, a comida, a casa, etc. Mas à medida que fazemos este exercício encontramos mais situação que requerem a nossa contemplação. Na realidade parece não haver fim ao sem número de "coisas" que podemos contemplar. Isto acontece porque a contemplação anda de mãos dadas com a consciência. Acredito na realidade que a prática contemplativa é uma janela da consciência, que nos permite estar mais "acordados" perante a realidade que vivenciamos.



Por isso a contemplação é, em meu entender, não só uma ferramenta útil, como indispensável para o caminhante espiritual pois ela permite uma aproximação ao Shen-espírito

Podemos contemplar todo o mundo ilusório que vivemos, mas podemos contemplar a nossa existência. O conjunto de milagres que têm de suceder a cada segundo para podermos vivenciar esta experiência. As trocas gasosas (oxigénio), as trocas químicas (neuronais), os impulsos elétricos (batimento cardíaco, função motora)... Todas estas funções a trabalhar incessantemente para que possamos estar disponíveis para vivenciar este mundo, sendo que tudo o que queremos é libertarmo-nos dele e regressar à origem.

Contemplar tudo isto é presenciar a magia deste mundo complexo e é incluir a ilusão na verdade, mas efectivamente verdade e ilusão provêm da mesma fonte. A contemplação une e por isso permite a transcendência da dualidade.

A contemplação é por si só uma prática muito poderosa que deve ser tida em consideração e praticada com devoção

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

O Dao e a minha caminhada alquímica - post 09 - A resiliência

Há quase 20 anos que tenho contacto com o Daoismo, há cerca de 18 que fui introduzido ao Qi gong e há cerca de 15 que comecei timidamente as minhas práticas internas ou assim pensava eu...

Toda e qualquer prática que leve a um profundo entendimento quiçá mestria, necessita de muita insistência, persistência e resiliência.



Ao longo de todos estes anos essa tem sido a minha verdadeira batalha. Adquirir e manter a motivação necessária para uma prática regular, pois apenas desta forma é possível evoluir verdadeiramente

Nos primeiros anos tinha a ilusão que o importante era aprender muitas coisas, tomar contacto com estilos diferentes, professores diferentes. É certo que isso tem a sua importância mas talvez não aquela que acharia em primeira instância. Não é a diversidade que nos dá a profundidade, essa encontra-se na prática incessante de algo muito concreto. O que a diversidade acaba por nos mostrar é que ela é apenas e só isso, diversidade. E que com ela a única coisa que podemos esperar é superficialidade... Sim, por isso isso hoje se segue muito o princípio da especialização, pois dessa forma podemos-nos dedicar a algo de concreto e assim aprofundar o nosso entendimento. Claro que esta conclusão já requer um entendimento que em muito é importante na nossa caminhada, pois retira-nos desde logo uma parte da ilusão permitindo assim que o caminho se torne menos sinuoso e mais directo para alcançarmos o nosso objectivo.



Há cerca de 8 anos comecei a fazer essa preparação, a de identificar exactamente o que pretendo e estudar afincadamente o que decidi seguir. Essa decisão mostrou-se revolucionária no sentido em que me permitiu ter mais foco na minha vida, em todos os seus domínios. 
A partir do momento que tomei essa decisão, comecei a estudar mais o que já sabia (ou que julgava saber) e procurando um estilo completo que eu pudesse levar comigo por muitos anos. Isso manifestou-se também na minha prática clínica de Medicina Chinesa e na minha vida pessoal. 

Enquanto que o olhar externo veja eu estar a fechar-me e a ficar circunscrito a poucas coisas, o que eu constato é a evolução e crescimento, agora, de forma real. É dificil pôr isto em palavras, mas é muito diferente obter informação e até mesmo conhecimento, de obter entendimento. Na minha maneira de observar e sentir, é no entendimento que se dá um passo substancial no nosso crescimento, é quando o conhecimento se torna parte de nós e nós parte dele.

Vamos supor que construimos uma casa. Vamos precisar de cimento, tijolos, janelas, telhas, pavimento, etc, etc. Todos estes materiais são o conhecimento. Nós, somos o terreno onde esses materiais são depositados. À medida que os materiais vão sendo aplicados, com o tempo, a casa vai ganhando forma e vai-se fundindo com a terra também. Quando concluimos a construção da casa, temos um elemento, já não há mais o tijolo ou a janela; a telha ou o cimento, temos a Casa. Também não vemos a casa como implantada no terreno mas sim integrada no terreno. É assim que vejo o entendimento, quando o conhecimento já não é um material que se pode discriminar, mas sim é parte integrante de nós. A manifestação desse entendimento é muitas vezes feita sob a forma tranquila pois a convicção elimina o medo, sem medo não há insegurança, sem insegurança não há ansiedade, sem ansiedade não há lugar à exacerbação emocional.

Mas este texto é sobre resiliência e é sobre resiliência porque sermos capazes de nos "fecharmos" numa tarefa, quando o mundo nos convida diariamente para a diversificação/dispersão requer essa qualidade. Neste caso em concreto via requerer também que aceitemos abdicar de outras vivências e experiencias em prol do que achamos melhor para nós.

Com resiliência vamos conseguir aprofundar o nosso entendimento e descobrir que menos pode ser mais e que mais pode ser menos. Vamos aprender muitas coisas sobre a vida que não nos são ensinadas e desenvolver certezas que só nós podemos descobrir.

A caminhada é longa e todos terão de percorrer a sua. Mas certamente que todos nós ficaremos a ganhar se desenvolvermos esta qualidade


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Simplicidade

 A via da simplicidade oferece-nos diversas conquistas. Ela liberta-nos para um bem estar dificil de ser equiparado.

Quando vivemos a simplicidade, não há lugar para a competição, pressão e ansiedade. Para quê?

Buscar uma vida Simples, ser um Homem simples e buscar a Simplicidade no mundo que nos rodeia permite-nos também, escapar às tentações efêmeras e que tanto nos inquietam

Não há ninguém que não entenda o que é levar uma vida simples, é um caminho que não está encriptado culturalmente e que por isso, todos podem percorrer.

Ao procurar a simplicidade aceitamos a nossa condição de humanos, que congrega em si o limite fisico a dificuldade o obstáculo e a impossibilidade. Esse reconhecimento e aceitação liberta-nos de estados como a inveja, o sentimento de injustiça, a revolta ou a mágoa. 
Mas viver de forma simples é sobretudo reconhecer a grandiosidade do espírito, é entender que só por esta via ele se engrandece se expande.

Viver de forma Simples adormece o ego, e entrega à mente uma nova forma de ver o mundo

quarta-feira, 6 de maio de 2020

O Dao e a minha caminhada alquímica - post 08 - A sexualidade



Este é um tema muito debatido em todas as esferas, o Daoismo não poderia deixar de o tratar. O que é interessante é que o Daoismo parece ter duas visões distintas sobre a sexualidade. Uns que veem a sexualidade como uma ponte a transformação energética, outros como um furo que nos esgota a energia.

É sem dúvida um tema complexo, cheio de medos, tabus, paranoias e preconceitos. Outra coisa interessante é que o homem, sim sobretudo o homem tem um desejo intrínseco que lhe perturba o discernimento. O desejo sexual que o assola não permite que este tenha uma visão clara e imperturbável sobre o tema. Digo isto porque encontramos, sempre encontrámos espalhado na sociedade, um extremismo generalizado em relação a este tema. Os ferverosos defensores do celibato, afirmando que a sexualidade é um mal do qual nos devemos livrar e os outros que acham ridícula qualquer tentativa de abstinência sexual.

Vou tentar explorar a sexualidade de um ponto de vista Daoista.

"O desejo sexual é uma expressão da abundância de Jing Qi" 

Podemos ver isso facilmente nos jovens quando têm o instinto de se tocar sem sequer saber ainda o que estão a fazer… O homem verifica também isso com a chamada erecção matinal. estas sensações ou comportamentos que vêm de "dentro para fora". Então, quando Jing Qi atinge o seu "pico" a ovulação acontece, e o homem pode libertar sémen. Quando esta energia se encontra em grande quantidade é como um copo cheio de água que facilmente transborda.

A sexualidade no homem torna-se natural e saudável e na mulher (que desgasta o jing de forma cíclica sem envolvimento sexual) todo o seu corpo se apresenta equilibrado e plenamente fértil.

"o desejo sexual é algo de natural e sinal de VITALIDADE"

Na alquimia Daoista, para prolongarmos a vida e alcançarmos a libertação, o Jing é fundamental. Através de práticas específicas, transformamos o Jing em Qi e depois em Shen. Podemos imaginar o jing o gelo, o Qi água e o Shen o vapor de água. Se não houver gelo, é impossível obter água e consequentemente o vapor da mesma… Por isso é fundamental para os Daoistas conservarem o Jing para que todo o processo alquímico possa ocorrer. É na realidade o primeiro passo! Convervar a energia! Não perder….

Sim, porque segundo a filosofia Daoista o Jing pode perder-se, e o desejo sexual pode ser perigoso pois leva o ser humano a ter relações e consequentemente perder vitalidade...

É aqui que começam a surgir correntes diferentes. De certo que muitos já leram sobre sexualidade Daoista (Sou Nü jing é um dos clássicos mais conhecidos), pois é um tema muito estudado e até profícuo para todos nós…

Mas até que ponto a sexualidade é importante no caminho? 


  • Uma corrente diz que podemos atingir a libertação através da sexualidade. Existem inclusivamente seitas Daoistas que fazem uso do formas semelhantes à da prostituição para "adquirir" jing do parceiro e assim poderem desenvolver o seu estado energético. Os homens Dragão de Jade acreditam que através do voyeurismo estimulam o Jing para que depois o possam circular e transformar. A mulher, Tigresa Branca extrai o sémen (Jing) dos diversos parceiros para seu benefício.
  • Outra corrente assemelha-se mais às religiões ocidentais monoteístas em que o celibato é tomado como uma forma importante do caminho. Dá-se muita importância à "poupança" do Jing das mais diversas formas (pois este não se perde unicamente através das relações sexuais, parto ou ovulação), para usá-lo no processo alquímico.

Estas são duas vias que parecem até contraditórias e torna-se um pouco polémico por isso. Mas talvez nem seja...

Há uns anos estudei a sexualidade Daoista e descobri coisas fantásticas. É por isso para mim claro que o trabalho sobre a sexualidade tem os seus reflexos que nos podem inclusive transcender para outros níveis energéticos. Não é coincidência que a sexualidade está também ligada a muitas religiões e cultos… Mas hoje penso de forma ligeiramente diferente, pois a sexualidade mais do que se tratar de gastar, manter ou ganhar Jing é também um momento em que interferimos com o Shen. Se a mente estiver muito fixada na sexualidade (como aqueles que usam a sexualidade para o seu desenvolvimento energético) o Shen fica doente, a moral distorcida e o caminho deixa de ser visível e possível de alcançar. 

Estas nuances, à medida que se caminha, assumem uma importância enorme!

Uma das coisas que aprendi na sexualidade Daoista foi a conservar o Jing, no fundo esse é o primeiro propósito. Podemos fazê-lo através da abstinência ou, mantendo relações mas de forma particular para que o Jing não se perca.

Muitos consideram que isso é apenas (no caso do homem) o chamado coito interrompido, ou até mesmo a separação entre o orgasmo e a ejaculação. A mim parece-me muito mais do que isso. Embora a capacidade de deixar de ejacular mantendo o orgasmo permite ao homem tornar-se capaz de atingir vários orgasmos sem com isto perder sémen, isto diz apenas respeito ao prazer. Não digo que não possa interessar a muitos, mas para aquele que pratica a via do Dao, o caminho não nos leva à busca do prazer sexual, pois busca outra coisa bem diferente. O importante é ele conseguir, segundo a sexualidade Daoista, fazer subir o Jing para o Dantian superior. Esta técnica como podem entender facilmente não se refere a uma subida literal do sémen para o cérebro… Mas sim ao Jing que, na realidade, não é apenas o sémen!. E é aqui que reside o grande "problema" Reduzir o Jing ao sémen ou à ovulação. O jing é muito mais do que isso, encontra-se noutros locais e pode ser trabalhado e afectado de diferentes formas. Mas voltando ao tema, é suposto pôr o Jing a circular pelo Du mai para que possa ascender até ao cérebro. Estas são técnicas violentas e perigosas que podem trazer resultados desastrosos, ou apenas a ilusão de que alguém está a usar o prazer para se iluminar...

Se na alquimia Daoista procuramos o desapego total, se procuramos viver de acordo com a brisa soprada pelo Dao e por isso eliminar a nossa vontade criada para voltarmos ao movimento primordial não podemos seguir a exploração sexual nem nos devemos deixar obcecar pelo celibato. Pois em qualquer uma delas o distúrbio causado pode causar danos irreparáveis...

É muito importante relembrar que buscamos a quietude suprema e a sexualidade facilmente nos leva ao turbilhão emocional. Não é por isso proibido e é aí, que nos vale a sexualidade Daoista. Podemos viver naturalmente a nossa sexualidade de forma ainda mais sensitiva (ao contrário de prazerosa) num plano de quietude. 

Diz-se que a pessoa não deve transpirar, o coração deve permanecer tranquilo e ao terminarmos a relação amorosa devemos-nos encontrar com mais vitalidade.

Se o fizermos então não nos devemos preocupar com mais nada. Devemos continuar o nosso trabalho alquímico e certamente encontraremos frutos ao longo do nosso caminho. À medida que o nosso trabalho for ocorrendo, naturalmente o desejo se irá dissipar (não porque o Jing está esgotado para porque ele circula para o Dantian superior ao invés de ficar "preso" no Dantian inferior). Nesse momento podemos dizer que nos libertámos do nosso "instinto animal e biológico" e que somos sexualmente livres.

Na sexualidade Daoista, a relação é subtil, os sentidos despertam lentamente, os orgasmos ocorrem de forma menos "intensa" mas de forma mais prolongada e profunda, tornando a experiência sexual única. Durante a relação não surgem pensamentos fortes e agressivos, não há agitação mental ao invés é vivida um pura tranquilidade com o parceiro(a), em que são partilhadas sensações. É um acto de contemplação do outro mas também de nós.

A sexualidade deve então ser vivida com naturalidade e ao mesmo tempo analisada. Estaremos a vivê-la de forma tranquila? Será ela fonte de ansiedade, esgotamento ou obcessão? Estará a sexualidade a moldar a minha visão das coisas?

O que é o desejo sexual?

Tenho entendido nos últimos tempos que existem pelo menos duas formas de desejo sexual à qual devemos estar atentos. Porque gosto de por as coisas nestes termos vamos dizer que um desejo é interno e outro externo, yin/yang. Um desejo deve-se à abundância de Jing outro deve-se a condicionantes externas, ao Shen.

Aqui creio que reside uma grande rasteira, talvez o maior perigo de perda de Jing. Será que o impulso sexual que estamos a sentir é verdadeiro ou induzido? Será que ele vem da nossa vitalidade ou dos nossos pensamentos ou provocação de outros? Isto confere toda a diferença.

Quando a energia é exuberante esta manifesta-se… Há vários exemplos deste acontecimento. 

Por exemplo quando temos uma fome extrema em oposição àquele snack que nos cativou ou aquela fatia de bolo que quero tanto... Enquanto no primeiro caso há tanto necessidade do corpo em obter energia como o fogo do estômago se encontra activo (fornecido pelo Chong mai), no segundo caso o corpo não sente necessidade e muitas vezes o fogo do estômago encontra-se até debilitado (sempre que comemos o Qi do estômago desgasta-se e este precisa de tempo para se repor). Então se comermos com fome estamos a respeitar o nosso corpo na integra, se comermos sem fome estamos a atacá-lo e degradá-lo. O mesmo se passa com a sexualidade.

É então fundamental aprendermos a discriminar o desejo interno do externo. O desejo que se desenvolve na pura vitalidade do desejo influenciado por aspectos culturais, imagens mentais e outras influencias ainda mais complexas... Se aprendermos a identificar as diferenças estamos mais perto de continuar a nossa caminhada livre de problemas. Podemos se calhar ver de forma diferente o que foi falado acima. Verificamos com facilidade a subjectividade de muitas coisas. Não basta dizer Sim! celibato ou Não! vamos explorar a sexualidade. A vida está recheada de caminhos tortuosos e é fundamental sermos conscientes, humildes, destemidos e corajosos para que possamos ultrapassar os diversos obstáculos que muitas vezes, só podem ser ultrapassados por nós pois são realidades únicas e que ninguém conhece. Este é outro perigo, tendemos a criar empatia com outras pessoas que vivem "a mesma coisa", mas na realidade são coisas parecidas. Ora, "coisa parecida" é ≠  de "mesma coisa".

Espero, sinceramente que esta publicação tenha contribuído de algum modo que não tenha sido demasiado enfadonha ;)



quarta-feira, 29 de abril de 2020

O Dao e a minha caminhada alquímica - Post 07 - A separação da mente

Para quem se dedica à prática interna, a mente está sempre presente. Para alguns será tudo, para outros não. Dependerá sempre da visão única de cada um e se, sobretudo, se a visão é mais religiosa ou espiritual.
Considero de facto importante a forma como vemos as coisas, mas no final tudo são palavas, pois a Verdade é a Verdade e não há palavras que A possam descrever ou adulterar. Podem apenas afastar-se dela...

Para mim, neste período a mente tem quase toda a minha atenção. É nela que me centro na minha introspecção e análise.

Nos últimos meses ou anos tenho-me debatido sobre as diversas nuances da mente. Os pensamentos, as obsessões, as intuições e outras coisas estranhas com que nos vamos deparando no dia a dia como uma possível telepatia...

Tento ir analisando aquilo que vou percebendo e, sobretudo, decompondo para perceber se será real ou ilusório. Sim! Porque a mente prega-nos muitas partidas.

Porque há muitas coisas nas quais queremos acreditar e outras que abominamos. Isso tolda o nosso pensamento e molda as nossas conclusão em nosso benefício.

É crucial entendermos isto! É mesmo muito importante. Pois a verdadeira liberdade chega quando nos libertamos do maior carcereiro, NÓS!

É fundamental estarmos GENUINAMENTE comprometidos com a Verdade, porque muitas vezes Ela não nos é conveniente. Quando a nossa busca não é sincera, tendemos a mentirmo-nos a nós mesmos. É como nos encontrarmos numa corrente da qual não conseguimos sair. Quando parece que estamos quase a sair dela, eis que somos puxados de novo para o centro da mesma.

É então fundamental que nos entreguemos à busca da Verdade! Se queremos entrar verdadeiramente na prática interna este é um requisito! Caso contrário tudo não passa de uma ilusão.

Nesta fase das nossas vidas vivemos tempos muito confusos de pandemia em que as nossas liberdades parecem ser postas em causa. 
Exacerbam-se os extremos; aqueles que acham que deveríamos estar completamente isolados uns dos outros, parados e unicamente preocupados com o virus que nos assola e, aqueles que acham que isto não passa de uma "mise en scene" por parte dos grandes líderes mundiais com o propósito de nos controlar a todos. 

Não tenho qualquer interesse em debater o que estará certo ou errado, até porque creio que nunca encontramos a verdade nos extremos. O importante nestas tomadas de posição é, mais uma vez, cada um fazer o seu exercício e tentar discernir o que é realmente genuíno e o que é fruto do seu ego medos e paranoias. 

Dei este exemplo porque nas crises tudo se torna mais visível mas na verdade este tipo de comportamento tende a ocorrer diariamente. Esta fase é também um alerta para o que se passa connosco diariamente.

Dito isto, retomo o inicial… A mente é realmente um universo em si mesma. Contém ilusão, verdade, memória, medo e ambição, desejo e intuição. Quando começamos a prática interna são muitas as transformações que ocorrem. Para aqueles que já iniciaram a sua prática, saberão do que estou a falar. Para os que ainda não começaram posso dar uma ideia.

A prática produz SEMPRE alterações no corpo, essas alterações ocorrem de forma única em cada um pois cada um se encontra de forma particular. Mas de forma geral a prática interna produz uma diminuição das dores, aumento de flexibilidade articular, aumento de flexibilidade. Com o continuar da prática as alterações continuam a ocorrer, o sono melhora tornando-se mais profundo e reparador e as emoções começam a tornar-se mais brandas e a mente mais tranquila. Em todos os aspectos no nosso corpo as alterações permanecem de forma contínua, com altos e baixos, à medida que continuamos nesta caminhada. Há momentos em que tudo parece estar a desabar, quando na verdade, o que está a acontecer é a exteriorização de muitos desequilíbrios recalcados e bloqueados no nosso corpo. Essa é mais uma razão pela qual devemos seguir Um método e devemos estar certos do que estamos a fazer para não abandonar o caminho à minima contrapartida.

Nos últimos meses ou anos tenho-me debatido sobre as diversas nuances da mente. Os pensamentos, as obsessões, as intuições e outras coisas estranhas com que nos vamos deparando no dia a dia como uma possível telepatia...

Nos últimos anos tenho tentado "ler" as nuances da mente. O que se passa na minha mente. Os pensamentos e sensações. 
De onde vêm elas? 
Virão de mim ou são induzidas por outros? 

E o que sinto em relação aos outros, são preconceitos ou é efectivamente uma leitura do outro?

Estas perguntas, e outras, acompanham-me diariamente. Pouco a pouco começam a chegar algumas respostas.

Falo agora da minha experiência particular sem querer induzir ninguém a conclusões precipitadas baseadas na minha experiência particular.

Muitas dúvidas ainda neste percurso que muito lentamente me vai clarificando e retirando a névoa que possuo na mente. À medida que a percepção se vai desenvolvendo há uma espécie de sensibilidade que é na realidade muito objectiva e clara para quem a vive. 

Tenho concluído que foram muitas as vezes em que a "imagem" primária que tinha das pessoas com quem contactei se alteraram na maioria das vezes. O que é que isto me diz? Muitas das ideias mentais iniciais não passavam da tentativa infrutífera de analisar as pessoas, com base nos meus preconceitos. O tempo e a humildade veio a fazer-me ignorar estas "indicações" mentais dando liberdade ao surgimento de outras faculdades.

Outra coisa interessante é a forma como os pensamentos ou ideias surgem na nossa mente. É tão subtil que é praticamente impossível discernir a sua diferença. 

Tenho estado muito atento e vejo hoje que existem pensamentos que não possuem "a mesma origem". Quero com isto dizer que enquanto uns aparecem devido a um novelo de experiências passadas, influências de familiares e amigos ou coisas que vimos na internet ou TV; há pensamentos que parecem surgir de forma directa sem qualquer influência de qualquer ordem. Creio que este último tipo de pensamento se enquadra na Intuição. Uma forma de informação incorruptível e sem qualquer deturpação que não foge à verdade e por isso nos dá uma confiança inabalável e indestrutível. Mas a questão é ter a certeza de que esse pensamento é realmente um pensamento intuitivo.

*pensamento nem me parece a palavra mais correcta quando a tentamos relacionar com a intuição, pois o pensamento congrega reflexão e neste caso ela não existe.

Esta pesquisa irá certamente ocupar grande parte da minha vida, senão toda. Na realidade tudo acontece em simultâneo. Quando falamos de mente, falamos de corpo também. Quando nos debruçamos no corpo a mente também se altera e molda...

Esta é apenas uma partilha do que tenho vivido nos últimos anos e que em muito decorre das práticas que tenho feito.

Espero que não tenha sido muito enfadonho ;)

domingo, 5 de abril de 2020

A importância do corpo físico

Alguns, na busca da sua espiritualidade acabam ignorando a importância do corpo físico. Isto porque elevam o Espírito em deterimento da matéria.
Dao

Na óptica do Daoismo o corpo físico é também importante, para não dizer determinante no próprio processo alquímico. É-o porque ele possibilita a transformação da energia densa em energia subtil.

Há aspectos materiais que tendem a evaporar-se neste trabalho. As "necessidades" mundanas que sentimos muitas veczes como essenciais à vida, desaparecem. É por isso que o Homem que segue a via espiritual se desliga progressivamente da sociedade actual em que vivemos, mantém-se contudo presente.

 Podemos pensar que para alcançar a iluminação precisamos de meditar, meditar e meditar. Creio profundamente que é essencial, mas não chega. Temos vários exemplos de mosteiros onde foram desenvolvidas técnicas de exigência física para que os monges pudessem manter o seu corpo. Porquê?

Será que estavam preocupados em exibir um corpo musculado?

Será que faziam passagem de modelo para ver que era o mais belo?

Claro que não! Após horas e horas de meditação, os seus corpos tornavam-se debéis e adoeciam. E a doença não é compativel com a espiritualidade. Desenvolver o espírito, não obriga à negligência do corpo. Eu diria mesmo que apenas mantendo o corpo a verdadeira espiritualidade pode florescer. O que deve ser negligenciado são as "necessidades" em que o corpo tanto nos inquieta.

Ao manterem o corpo saudável e forte, os monges já podiam meditar sem dor, sem desconforto nem debelidades.

Claro que existem muitas correntes espirituais. Umas negligenciam por completo o corpo, outras não. Outras fazem ainda uso dos desejos carnais no trabalho espiritual.

Estou aqui a expressar a minha opinião e defendendo mais uma corrente do que a outra. Não tenho a veleidade de de dizer que as outras estão erradas, quero apenas tentar argumentar porque acho esta mais acertada.

Do ponto de vista Daoista podemos facilmente compreender o que quero dizer. Quando praticamos alquimia Daoista o objectivo é, claro está, alcançar o Dao. Transcender a dualidade e entrar em contacto com a unidade.

O Dao De Jing, de Lao Zi começa da seguinte forma:

O Dao que é pronunciado não é mais o Dao eterno;
O nome que foi escrito não é mais o nome eterno.
O inominável é o princípio do universo cósmico;

O Dao De Jing é um texto de estudo infinito. A sabedoria presente no texto é incalculável e apresenta diferentes camadas de profundidade. É por isso rídiculo determinar apenas um significado para um capítulo ou texto...

Dito isto, retiro deste texto o seguinte:

O Dao que é pronunciado não é mais o Dao eterno - A discriminação é efémera, a mente é incapaz de apresentar o Dao

O nome que foi escrito não é mais o nome eterno - O Dao não é traduzido por palavras, a tentativa de o descrever cria a ilusão

O inominável é o príncipio cósmico - O Dao é algo que nem conseguimos proferir pois, na realidade não o conseguimos entender.

Voltando agora à temática...

Dar prioridade ao desenvolvimento espiritual em deterimento do corpo físico diz-nos desde logo uma coisa... Discriminação, dualidade, separação logo não podemos alcançar o "Dao eterno"

Nós somos um só corpo, e só assim poderemos sonhar em alcançar o Dao, trabalhando para a Unidade

Então nem sequer se trata de cuidar do corpo e tratar da mente ou Espírito… Trata-se de cuidar de nós, de nos esquilibrarmos, de nos sublimarmos e de transformarmos o nosso Corpo numa substância mais etérea mais próxima do Dao.
Em alguns textos alquímicos é discrito inclusivé que a partir de determinado ponto de desenvolvimento o corpo muda de aspecto. Pois a transformação ocorre a todos os níveis.

Então;
a prática não tem hora
a prática não início nem fim
a vida é a prática

não se trabalha o espírito
não se trabalha o corpo
trabalha-se a integridade do corpo

só assim caminhamos para a unificação
apenas desta forma poderemos alcançar o Tai Ji
e enfim observar o Dao


Em jeito de conclusão dizer que não devemos desprezar o nosso corpo. Dar importância ao corpo não é ser-se materialista. Não tem nada a ver. Cuidar do corpo é cuidar da nossa casa, cuidar da parte Yin da nossa essência. Apenas equilibrando Yin e Yang podemos alcançar o Tai Ji. Apenas alcançando o Taiji poderemos observar o Dao.

Por alguma razão as práticas Daoistas conhecidas integram movimento, respiração… O objectivo é o da UNIFICAÇÃO! Não se pretende separar nada, qualificar nada… Apenas harmonizar, unir, congregar. E isto ocorre em todos os planos imagináveis e inimagináveis.

Esta é a beleza no Daoismo, a UNIFICAÇÃO! Na nossa vida isso reflete-se também com a libertação da crítica, no fundo da discriminação pois este príncipio afasta-nos do Dao.

O Dao que é pronunciado não é mais o Dao eterno

domingo, 29 de março de 2020

O Shen e os seus diferentes aspectos...

O Shen usualmente traduzido como espírito ou mente, em função do contexto é algo de complexo e nem sempre consensual. Mais uma vez, nada melhor que estudar o caractér…

神 - Este caractér é composto pro duas partes:

礻Shi, o radical e 申 Shen o que fornece a fonética…

O radical é uma parte do caractér importante pois direcciona o seu sentido, comanda a ideia (na maioria das vezes). Shi é traduzido como culto, o que revela desde logo algo de metafísico com intenção espiritual.
Shen por sua vez pode ainda ser decomposto em dois, sendo 田 Tian o seu radical e que simboliza o terreno, o corpo. Shen pode traduzir-se como fazer uma declaração, explicar, ligado à expressão humana.

神 Shen o caractér que é traduzido claramente como Deus, divindade, misterioso, essência divina o ser espiritual.

Podemos então claramente entender o porquê da tradução comum de 神 Shen. Em medicina chinesa é muitas vezes traduzido como mente, o que parece ser incorreto ou insuficiente.

O que é certo é que Shen parece ser algo de misterioso que habita em nós, a divindade. Na medicina chinesa diz-se que o Coração alberga o Shen e que o sangue o sustém (o Yin).
No trabalho alquímico o grande objectivo é transformar a essência em Shen mas como?

Existem muitos princípios a respeitar, alguns deles vão sendo abordados aqui e ali, mas algo que é muito importante é, o Shen, ou pelo menos uma parte dele

Para que o trabalho alquímico seja real e por isso eficaz, devemos fazer uso da mente (que não é Shen mas apenas uma parte) devemos usar a nossa atenção/percepção, concentração, intenção… e é aqui que encontramos outros termos como Yi, Ting...

Na medicina chinesa, segundo o principio dos 5 movimentos (Wuxing) considera-se que para cada movimento está associado um órgão e para cada um dos 5, um Shen; Zhi, Yi, Po, Hun e Shen propriamente dito

Zhi está associado à coragem à vontade, Yi é geralmente traduzido como reflexão ou ponderação. Po é o espírito "inferior" que nos agarra à vida, Hun a alma "etérea" que nos liga ao divido e Shen o comandante sopremo mas que aqui pode estar, segundo a Medicina Chinesa, ligado ao intelecto...

Aqui há um olhar diferente sobre Shen, uma discriminação criando 5 subtipos. Estes termos ou aspectos do Shen são muitas vezes abordos na alquímia Daoista..

Mas podemos discriminar ainda mais… Po tem 7 aspectos. Sun Si Miao um notável médico chinês da Dinastia Tang elaborou uma terapêutica de acupunctura para o tratamento das desordens dos "7 Po´s"

O objectivo desta publicação é apenas dar umas luzes sobre o conceito de Shen e motivar os interessados a investigar mais. A lingua chinesa é sincrética e exige abertura, flexibilidade e conhecimento para que possamos entender um pouco mais o que os antigos queria transmitir.

Relembro que na alquimia Daoista o propósito é cultivar o Shen.

Devemos primeiro preservar o Jing e nutri-lo. Depois e através de um método próprio transformá-lo em Shen.

Nos dias de hoje, circula muita informação de como fazer isto e aquilo. O problema reside no consumo… Sim porque o que interessa é dar o que as pessoas querem e não o que precisam. Em alquimia isso pode levar à doença e à morte. Se a prática não for correta o corpo não irá beneficiar, muito pelo contrário. São inúmeros os casos de pessoas que se deram mal com as práticas erradas.

Reforço por isso, mais uma vez, a ideia de que devem seguir um método. Fazer o que têm de fazer no tempo certo e não fazer o "que sabe bem". Quem quer realmente cultivar o Shen, transcender-se, precisa de um método.


sexta-feira, 20 de março de 2020

O tempo do ermita...

No Daoismo procuramos a unidade, a transcendência do mundo dual, o abandono da ilusão e o encontro com a realidade suprema.

Neste momento estamos a viver uma fase de grande sofrimento, o medo e a ansiedade crescem em função das notícias desta pandemia que está a afectar o mundo inteiro. Estamos centrados no poder destrutivo deste ser vivo que está em franca prosperidade.

Sim, todos temos de tomar as medidas recomendadas, fazer de tudo pela nossa saúde e pela saúde de todos os que nos rodeiam. Sim temos de ser uma verdadeira comunidade.

Esta pandemia está a alertar-nos para a importância de modelarmos o nosso comportamento também pelos outros, obrigando-nos a abandonar o individualismo em que a sociedade moderna vive.

Este é um aspecto da experiência recente.

Mas há mais!

Um pouco por todo o mundo, foi-nos pedido por segurança, ficarmos o máximo em casa ou em locais isolados. 
Hoje o planeta agradece e respira como há muito não o fazia...

Neste tempo em que somos Ermitas forçados, devemos aproveitar a situação para nosso favor. Devemos aproveitar, de forma produtiva o facto de estarmos com mais tempo, para o tornar útil!

E o que vamos fazer? 
Bom este é um blog sobre Daoismo :) então… Vamos praticar!!!

Hoje temos ou não temos tempo para a nossa introspeção? Para respirarmos, Para movermos o nosso corpo de forma integral?

Segue aqui a minha humilde recomendação, para TODOS os dias

Ao acordar - Desbloquear todo o corpo para que o Qi circule e que possamos eliminar a estagnação espalhada pelo corpo. Neste momento é importante aquecermos os músculos e alonga-los. Devemos também aumentar a mobilidade das nossas articulações.
Se quisermos fazer ainda mais, recomendo o estilo Yi jin jing ou estiramento de canais, neste último poderei ser-vos útil se assim desejarem...

A meio da manhã - Devemos fazer alguns exercícios para regularizar as funções básicas do Qi no corpo. Existem vários deixo aqui um...



Após o almoço - O ideal a seguir ao almoço é repousar, deixar o corpo digerir, transformar e absorver. Devemos aproveitar este momento para ensinar a nossa mente a escutar o que acontece dentro e a ignorar o que acontece fora. Um excelente treino meditativo. Verão, que a digestão não só será mais rápida, como muito mais produtiva (melhor assimilição produzindo mais energia, melhor saúde)

Para quando a digestão terminar
Praticar um estilo de Qi gong à vossa escolha. Para quem não conhece nenhum o Baduanjin deve ser escolhido (mais uma vez para quem desejar poderei ser-vos útil).

A meio da tarde recomendo então começar o treino meditativo. 

Comecem pela postura de Wuji


Passem então para a meditação...



É importante criarmos rotina e disciplina. É importante praticarmos TODOS OS DIAS, não interessa se um dia fiz 1 hora de Qi gong e 2 horas de meditação se nos restantes não fiz nada. A prática é para o nosso corpo como um construtor para um obra. É no dia a dia que se vai construindo e transformando a obra, seja esta o nosso corpo ou um lindo edifício.

Já agora, esta é também uma forma preventiva extraordinária! Não apenas para o problema que vivemos actualmente como para tudo de uma forma geral. Se é a panaceia? Não creio, mas na realidade se melhorarmos a condições internas do nosso corpo, estamos a potencia-lo. Estamos a torna-lo mais forte, mais resistente. Então estamos mais saudáveis, estão à espera de quê? ;)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Sobre as energias

Boas e más energias...
Positivistas e negativistas...

Haverá realmente uma "boa energia ou má"?

Serão opostos os positivistas e os negativistas ou serão iguais, ambos iludidos com uma perspectiva da realidade...

Aquele que busca a verdade presta atenção à dualidade e não se deprime com o mau nem se excita com o bom pois ambos coabitam permanentemente...
Isto porque a verdade não é dual, não é passivel de ser fragmentada nem divisível. A verdade não é subjectiva nem temporal

A razão pela qual escrevo esta reflexão é simplesmente pelo que vou ouvindo ao longo destes anos.

Por viver mergulhado nas artes chinesas, as pessoas tendem a falar de determinadas coisas comigo. 

Entre muitos temas, o da "energia"... Ah aquela pessoa tem má energia, aquele sitio tem boa energia. Vou meditar àquela hora porque a energia é boa, ou não como aquele alimento porque a energia é má...

Esta mentalidade ou forma de ver a realidade sempre me intrigou. Não sou ninguem para considerar o que quer que seja, mas tomo a liberdade de reflectir nos assuntos que me são dirigidos. 

Vamos fazer um exercício...

Se há alguem da nossa familia que tem "má energia" e que por isso nos é nefasta, o que vamos fazer? Vamos-nos afastar dessa pessoa para nos preservar, ignorando o que possa vir a acontecer com ela ou, vamos tentar participar na sua transformação para que ela passe a ter uma "boa energia"?

Outro exemplo

Há dias uma vizinha perguntou-me o que eh achava de determinado local para meditar pois ela achava que o local tinha muito boa energia. Queria saber o que eu sentia... Anui pois ela queria apenas uma confirmação do que já tinha pré-determinado, aliviando um tema que seria dificilmente esclarecido. Isto porque o local, no meio da natureza (calmo, com claridade, de de uma beleza natural inestimavel) era na realidade um bom local, mas para a minha pessoa não o ideal para a meditação por ser uma clareira num caminho de passagem. Má energia? Para mim nada disso! Apenas um obstáculo para a minha propria busca da tranquilidade.

O que para a minha vizinha era bom, para mim não era de todo o ideal.

Após anos de ouvir opiniões das pessoas em "dialeto energético" tenho vindo a entender que mais se trata de uma projecção dos preconceitos e crenças de cada um, do que da efectiva qualidade energética daquilo.que classificam

Se nos debruçarmos nos textos filosóficos, alquímicos e sagrados veremos que em última análise procuramos sempre o equilibrio entre uma qualidade e a outra para que estas se tornem indistintas e formem uma unidade ultrapassando assim o mundo dual. Nunca é negligenciada uma polaridade em deterimento da outra, nunca é considerado que devemos evitar, ostracisar, negligenciar, a polaridade que nos gera desconforto ou aversão. Pelo contrário! O que nos gera desconforto mostra algo sobre nós mesmos, algo que não esta em equilíbrio e que sobressai quando confrontados em certas situações.

Então aquele que busca a verdade ou realização, vai unir e não separar. Por isso é dito "dar a outra face" é dado o exemplo dos sábios a viver no mundo ordinário. 

Aquele que separa nunca poderá encontrar a verdade pois esta aglomera as diferentes qualidades existentes.

Cada um de nós percorre o seu proprio caminho, cheio de buracos, desvios e outros obstáculos. Cabe a cada um de nós ter a capacidade de manter o foco no nosso destino, e caminhar de forma humilde mas determinada

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

O Dao e a minha caminhada alquímica - Post 06 - Aproveitem a viagem


“aproveitem a viagem” – Sifu Adam Mizner


No início da minha caminhada consciente, comecei pelo estudo de textos daoistas, contemporâneos e clássicos. Ainda antes disso havia sido iniciado na prática do Qi gong por mestre chinês transportava todo o seu entendimento através da sua linhagem.

Este foi o meu início. O que me levou a decidir começar esta longa caminhada foi a minha mente obstinada. Racionalmente entendi parte da profundidade de toda esta forma de vida e decidi por isso tentar absorve-la.

Vim contudo a entender mais tarde que sem entrega nunca conseguiremos alcançar o que pretendemos. Pois para que o corpo sofra as alterações necessárias para nos transcendermos é fundamental que estejamos de corpo e alma e não apenas com uma parte…


Esta frase simples e aparentemente superficial “aproveitem a viagem” refere-se a isso mesmo. Mais do que o treino ser uma tarefa/obrigação para podermos chegar a algum lado, o treino deve ser o nosso objectivo! Devemos estar apenas focados no treino e não nas suas consequências (o que pretendemos). O treino deve ser uma fonte de alegria e satisfação e não o picar o ponto para mais tarde retirar os louros. E é na realidade com esta postura que as consequências do treino (o nosso objectivo) se tornam mais possíveis de acontecer, pois estamos de “corpo e alma”


Partilho o que sucedeu comigo há dias…

Após um fim-de semana difícil em que fui privado de um bom sono e também estive sujeito a níveis de stress acima do normal, senti-me mal…

No domingo senti-me literalmente mal… Não chegou a ter um impacto físico importante pois identifiquei o que estava a suceder a tempo, mas posso dizer o meu coração não estava muito bem…


Ao sentir-me assim recorri ao meu melhor remédio, o Nei gong. Saí e fui para o jardim, era já noite quando isto aconteceu.

Cheguei mesmo a sentir um misto entre dormência e pequenos choques entre o peito e ombro. Estava nervoso por dentro e já um pouco fatigado devido à agressão que induzi a mim mesmo após me exaltar…


Comecei então a minha prática habitual começando com Ji ben gong, exercícios de aquecimento e abertura do corpo. Depois fiz Zhang zhuan para tentar recuperar um pouco toda a energia perdida tendo depois praticado alguns exercícios de Song gong bem como para reforçar o Dan tian.

1 hora depois tinha o corpo seguro. A tensão desapareceu, a energia voltou a circular no corpo tendo atingido os níveis mínimos para que me pudesse sentir bem. Sentia-me contudo cansado, mas calmo.


Pude verificar o que os clássicos dizem sobre as emoções e a importância de as dominarmos, sob o perigo destas poderem ser destrutivas.


A nossa prática deve tornar-se parte integrante de nós. 
Um prazer, uma rotina, um tratamento…

Devemos ser disciplinados? Sim! Mas é importante também que no meio da rotina e disciplina haja espaço para o bem estar, pois se isso existir o corpo reage rapidamente e as transformações são efectivas!

terça-feira, 16 de julho de 2019

O Dao e a minha caminhada alquímica - Post 04 O sofrimento

O meu primeiro contacto com a prática interna foi em 2002 quando comecei a estudar chinesa. Na altura tive dois professores marcantes. Enquanto que um me ensinou as bases da medicina chinesa transportando no processo toda a riqueza filosófica desta ciência, o outro me aprofundou o trabalho alquímico através do Qi Gong. 

Na altura era tudo muito estranho/mágico para mim e pouco pude beber de tanto conhecimento que me foi passado. 

Começo o post desta forma por uma razão. As pessoas com as quais tenho contactado têm a noção que a prática interna promove uma melhoria gradual e evidente em quem o pratica. Eu quero dizer não! Não é bem assim…

Sim a prática interna tem o propósito de nos elevar, transformar na direcção do Homem superior ou verdadeiro 真人 (Zhen Ren). 

Mas embora esse seja o propósito isso não quer dizer que o caminho será cada vez melhor e mais florido. Na realidade a caminhada está recheada de desafios. 


Quero falar disto porque são muitas as pessoas que desistem ao primeiro obstáculo. São muitas as pessoas que duvidam e que põem em causa o método pois acham que se possuem uma prática interna ele deve servir para se sentir melhor e nunca pior. Pois, mas não!

A prática interna não serve os interesses do ego. É um método que nos eleva, dispersando as impurezas e criando condições para que o corpo se transforme

Na realidade todo o praticante que se entrega e que é sincero, vai sofrer. E o processo de sofrimento ocorre pela resistência que nós próprios oferecemos no acto de nos libertarmos de algo. Este sofrimento vai desde situações físicas como emocionais e mentais. 
É muito comum e por isso muito provável que aconteça em certa medida a todos os praticantes. 

Mas então sofrer é sinal de pratica interna? Não!

Obviamente que esta não pode ser uma forma de validar a nossa prática, até porque é muito possível que se ela for errada nos provoque sofrimento mas destrutivo…

O que nos deve guiar é o método. É fundamental ter um método bem definido e um mestre a quem possamos recorrer. 

Mas é muito importante estar preparado para o sofrimento pois este estará certamente presente na caminhada de cada um.

Nos meus anos de prática têm-me surgido diversas coisas, algumas muito complexas e que me levaram a duvidar da minha prática, mas a persistência e o tempo foram-me provando que eram apenas consequências da transformação do corpo. 
Hoje, olhando para trás e para o que aí virá, vejo como inevitável o sofrimento. Na realidade quando nos queremos "libertar" temos de entender que isso exige um esforço, esse esforço traduz-se sob a forma de sofrimento. Mas quando a libertação ocorre o estado alcançado justifica todo o esforço.

O caminho não é fácil, mas sem dificuldade o objectivo é inalcançável

terça-feira, 9 de abril de 2019

Estudo do termo Song

No treino de Taiji, bem como de Qigong é fundamental o corpo estar activo (Yang) mas relaxado (Yin).

Activo quer dizer que a mente deve conduzir o Qi, a respiração deve conduzi-lo e o corpo deve mover-se de acordo

Relaxado significa que o corpo não deve obstruir a circulação do Qi. O corpo físico deve estar solto, as articulações desbloqueadas, a respiração deve existir com fluidez, a mente deve estar atenta mas sem se prender a qualquer acontecimento interno como externo.


Yin e Yang devem estar em sintonia na prática interna.


Usualmente, dizemos que o praticante deve aprender a enraizar, a puxar o Qi para baixo, levando-o até à terra (enraizamento 根). Todos os que praticam Qi gong e Taiji já devem ter ouvido este termo inúmeras vezes. Faz menção de fazer descer o Qi, levar a nossa atenção à região inferior do corpo e à sua ligação com a Terra.


Há uns anos tomei contacto com o termo Song( 松 ) é muito usado no treino de Taiji.


Song quer dizer soltar, relaxar (palavra perigosa que não representa o objectivo na prática), largo

Antes de avançar é interessante estudar o caracter
Se o decompusermos encontramos:

Mu - 木 - madeira, árvore

Gong - 公 - justo, honorável, comum, justo

por sua vez Gong é composto, também ele, por dois caracteres

Ba - 八 - Número 8, todos os lados, de todo o lado

Si - 厶 - Privado


Podemos ainda fazer outro exercício interessante e comparar Song (松) com Gen (根)

Se os observarmos entendemos que possuem o mesmo radical, Mu (木). O radical é o que dá o sentido ao caracter. Então ambos se ligam, se dizem respeito. Mas são diferentes

Gen (根) possui também gen-艮, que neste caso confere a fonética. Pois Gen, traduzido como enraizamento, trás o seu simbolo de Mu (木). A árvore, sólida e estável que se envolver com a terra.


Voltando ao termo Song entendemos que é um termo que traduz de forma explícita passividade. Soltar, largar, estar solto, livre. No caracter gong 公 podemos ainda encontrar o 8, simbolo do interminável, e o privado. Podemos evoluir o pensamento no sentido de soltar, libertar em todo o lado, dentro e fora.


Mas quando e como aplicamos o princípio Song?

Quando?

Sempre, é um princípio básico para que a energia possa circular.Sabemos que para a energia possa circular os tecidos necessitam estar soltos, por isso devemos sempre estar em neste estado


Mas então como aplicamos este princípio na nossa prática?


Fang song (放松) ou relaxar e soltar é usualmente treinado, numa primeira etapa, com postura estática. Depois de adquirirmos a estrutura correcta, sendo essencial soltar as articulações (joelhos, bacia, ombros, omoplatas…), devemos abrir a nossa coluna através da ascenção de Baihui, topo da cabeça.

Após este processo devemos, passo a passo, suspender todo o corpo tendo como único ponto fixo, Baihui. Mais do que uma visualização intencional, o objectivo de Fang song é o de soltar todo o corpo, deixando o estar sem qualquer tipo de intencionalidade e objectivo.


Uma imagem que me ajudou a entender Fang song foi a ideia do saco de àgua suspenso. Se pendurarmos o saco ao alto (Baihui) toda a água (Qi) se vai deslocar para baixo, quanto mais quanto o próprio saco (corpo) permitir.


Este é o estado básico em que o corpo começa o seu processo de transformação, pois apenas quando o corpo se liberta o Qi começa realmente a circular e a provocar transformação. Na realidade é também após o processo de Fang song que o enraizamento (Gen-根) se processa.


Se não estava familiarizado com este termo, sugiro que o aprofunde e que o aplique pois é essencial para possa realizar a prática interna


Mais informações: Os 6 níveis de Song

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Nei Gong (内功) - Desenvolvimento interno

A prática interna é O grande objectivo daquele que busca a realização. 

Podemos estabelecer uma analogia com uma pessoa que decide "ir de fim-de-semana". A pessoa decide onde ir (realização). Para chegar ao seu destino existem diversas possibilidades, caminhos (diferentes praticas, religiões) mas todas elas alcançam o mesmo fim. Neste sentido a prática interna ou Nei gong é o momento que se segue à decisão até à chegada ao destin9, seja qual for o caminho escolhido.

No Daoismo há um caminho apresentado. O termo Nei gong já apresenta, em parte, um pouco do procedimento. 
Para melhor entender o que Nei gong poderá significar é Fundamental estudar os caracteres;

Nei gong são dois caracteres Nei-interno e Gong-prática

内 Nei - É composto por dois caracteres
冂 Jiong - Caixa
人 Ren - Pessoa
Podemos ver este caracter como uma pessoa a entrar num espaço ou caixa. A ir para o interior

功 Gong - É também composto por dois caracteres
力 Li - Capacidade, força, influência
工 Gong - Trabalho, técnica, profissão
O segundo caracter de Gong-工 possui a mesma fonética e fornece ao caracter Gong-功 o som, mas também o enriquece com o seu significado
Li induz a ideia de potencial (capacidade, força), enquanto que Gong-工 a continuidade; pois o trabalho é diário e árduo, uma profissão requer capacidade (Li), a técnica desenvolve-se com o tempo
Gong-功 é usualmente traduzido como prática, neste contexto, mas pode também ser interpretado como desenvolvimento. Se analisarmos os caracteres que o compõem essa ideia torna-se mais clara.

Podemos então traduzir Nei gong como desenvolvimento interno.
Nei gong é então, em primeiro lugar, algo que se passa no interior. Neste caso sendo algo que se passo no interior do nosso corpo. E o que se passa, através da prática continuada (trabalho...) é o desenvolvimento.

Então quem pratica o Nei gong busca o seu desenvolvimento interno, o desenvolvimento do corpo subtil não perceptivel aos olhos comuns, o Shen - espirito/consciência/percepção/mente.

Benvindos ao caminho interno 

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Respiração, , enchendo o recipiente...

A respiração é, nas práticas alquímicas internas, determinante. Diria que a respiração é a pedra angular do desenvolvimento espiritual do praticante. Se por um lado é importante desenvolver uma estrutura apropriada para que a energia possa circular correctamente, por outro é fundamental a mente estar desperta em todo o processo. A respiração é o elo de ligação entre estes dois pólos.

Vivemos na materialidade, os nossos sentidos primários ligam-nos ao mundo ilusório, a mente dá-nos a consciência para a libertação. Pretendemos então caminhar da Terra para o Céu, mas para isso precisamos de um veiculo, esse veiculo é a respiração!

A respiração é muito estudada nas práticas orientais, em particular na prática Daoista. Através da respiração podemos absorver energia, armazena-la e fazê-la circular nas mais diversas partes do corpo.

Através da respiração podemos sublimar a energia, fortalecer o físico e elevar a consciência. Por isso a prática interna sem cuidar da respiração é uma prática esvaziada, inútil.

Então respirar basta?

Não! Respirar é um aspecto fundamental, pois é a respiração que liga o plano físico ao divino, mas é apenas um processo, sem o resto pouco acontece.
É certo que cuidar da respiração promove alterações evidentes, tanto no corpo físico como emocional e mental, mas para que o processo alquímico se aprofunde é necessário muito mais

Encher o recipiente

O Dantian inferior ou Xia Dantian pode ser, aqui considerado como o recipiente que desejamos encher de energia vital. E por isso a respiração é maioritariamente abdominal (área que corresponde ao Xia Dantian).
Mas para que possamos encher o recipiente não basta respirar, é necessário activar o processo. Para que tal suceda é fundamental usar a Mente-percepção para que possamos conduzir a energia para o Dantian.

No final concluimos sempre o mesmo, todos os processos são indispensáveis, cada um é particular e nenhum é independente do outro para que possamos atingir a libertação.

Acredito que quando nos dedicamos ao desenvolvimento da respiração, corpo e mente se amaciam e desenvolvem. Mais tarde a nossa consciência adquirida permite elevar o processo respiratório e o encontro com o relaxamento físico profundo liberta a circulação do Qi.
No entanto não existe um método correcto, existe sim aquele com o qual nos identificamos mais!

Boas práticas

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Quando o medo se mascara e a preocupação ocupa lugar

A preocupação

Muitos dirão que a preocupação é fruto de um ser consciente e responsável. Que só um louco não se preocupa, pois o que seria da humanidade se o ser humano não se preocupasse com os outros…

Dirão também que é fundamental alguém se preocupar com o seu filho, os seus pais o seu companheiro, enfim todos aqueles de quem gostamos. A preocupação parece então estar ligada de forma estranha ao amor, isto porque as pessoas se preocupam com aqueles que gostam…

Alargando o tema da preocupação

 Mas a preocupação também surge no trabalho e, infelizmente, muitos são aqueles que não adoram o que fazer. Alguns até detestam… Então a preocupação não é sinónimo de amor, também pode decorrer noutras situações como o trabalho.

Podemos também ficar preocupados com algo que fizemos. Talvez não tivéssemos feito bem, talvez o que fizemos teve repercussões em alguém que nós não queríamos. Talvez o que fizemos no passado nos está a condicionar o presente e isso preocupa-nos…

E como a preocupação não conhece limite, podemos até ficar preocupados com o futuro, pois dele ninguém faz ideia o que vem… Mas às vezes, até por "sabermos" o que aí vem, ficamos preocupados

Antes de fazer uma reflexão sobre a preocupação, seria interessante estudar a palavra em si:

Preocupação: 
  • Estado de um espírito ocupado por uma ideia fixa a ponto de não prestar atenção a mais nada
  • Inquietação
  • Desassossego
  • Ocupação prévia
  • O primeiro a ocupar
  • Antecipar
De forma geral a preocupação assume um peso incomodativo no nosso espírito, pois preenche a nossa mente com algo impossibilitando vivenciar o momento. 

Ao impedir vivenciar o momento, a preocupação leva-nos para um estado de espírito em que vivenciamos a ilusão, mas porquê? Seja por antecipar um real acontecimento, ou por manter um pensamento sobre algo que corre por corrigir na nossa vida, essa ocupação mental nada traz de resolução.

Podemos contudo argumentar, que pelo pensamento permanente num tema, conseguimos muitas vezes resolver diversas situações nas nossas vidas, é certo. Isso acontece com a esmagadora maioria das pessoas. Quando há um "problema" ficamos a "meditar" (preocupados) nele e, algumas vezes encontramos a "solução". Para quem acha que esta é a via, este  texto não visa explorar este ponto que no meu entender tem a sua própria linha de raciocínio. 

O que posso dizer é que nós podemos resolver os desafios que a vida nos propõe das mais diversas formas. Umas serão melhores que outras, como em tudo na vida. No meu entender, a melhor forma de lidar com estes desafios é fazê-lo com a consciência no presente, em paz consigo mesmo aproveitando cada instante desta vida terrena que passa num ápice. Se a cada desafio que formos resolver, e são muitos os que aparecem na vida, perdermos a noção do momento; então estaremos a desperdiçar uma grande parte da vida. 

Usando a preocupação conseguimos vivenciar o presente de forma plena? Estou certo que não.

Então podemos lidar com o desafio em tempo real, não perdendo tempo em antecipa-lo, até porque muitas das vezes ele acaba por não se manifestar. Podemos também manter a serenidade e atenção máxima, fazendo uso de todas as nossas capacidades, para poder resolver o que nos surge. Geralmente a resolução é mais rápida, pacífica e menos desgastante, já para não falar do seu rácio de assertividade

A "conversa", trouxe-me até aqui, mas não era bem este o caminho que havia escolhido inicialmente. Surgiu-me que a preocupação pode ser apenas uma manifestação de algo mais profundo do nosso ser e não apenas uma característica nossa. 
A preocupação não deixa de ser um pensamento fixo sobre algo, uma pequena obcessão. 

O que nos leva a viver neste estado? Pois ninguém se sente genuinamente bem neste estado. Muitas pessoas se queixar que se preocupam com o tudo e com o nada mas não conseguem deixar de o fazer… Porquê? o que as impede?

O medo

Se confiarmos em nós e nas nossas capacidades, regra geral não seremos atacados pela preocupação
Se sentirmos uma confiança inabalável nos nossos amigos e familiares, estes não serão fonte do nosso medo
Se executarmos o nosso trabalho com dedicação e disciplina, o trabalho não será fonte de inquietação
Estando conscientes das nossas limitações e capacidades, não ficaremos desassossegados por acontecimentos passados nem inquietos em relação à indefinição do futuro

Creio, que para a preocupação nos abandonar, temos obrigatoriamente de observar o nosso medo, temos de o mandar para fora do barco, pois só assim a preocupação (e outras qualidades mentais) poderão extinguir-se. 

Mas para tal é importante dar o salto no abismo, e esse é difícil de fazer… Isto significa, temos de nos entregar ao mundo da indefinição, pois no que nos é exterior não conhecemos nada. A única realidade Somos Nós. é aí que deve residir a confiança, a entrega, a fé. 

Se vivermos sempre em função do que nos é exterior é como estarmos sempre a correr atrás de um cavalo, nunca o apanhamos… Mas se decidirmos viver em função do que somos, das nossas sensações, não apenas viveremos serenos e tranquilos, como muito provavelmente realizados
O medo

terça-feira, 24 de abril de 2018

A história do copo cheio e vazio, mas há mais... E a palhinha?

Já todos ouvimos falar na história do copo meio cheio, vazio, etc...

É uma imagem realmente interessante para tentarmos "materializar" a forma como a nossa mente processa o que nos rodeia, mas sobretudo o que nos permeia...

Se quisermos simplesmente assumir que a matéria que usamos para encher o "copo" é o conhecimento, as experiências, as sensações todos tenderemos a pensar... "quero ter o copo cheio".

Poucos serão aqueles que não querem saber mais, fazer mais, serem mais capazes, etc...

Mas aqui quando falamos de copo cheio, assumimos desde logo um limite, pois a partir do momento em que o copo está cheio, tudo o que vier a mais, transborda. Quer isto dizer que tudo o que vem a mais não é aproveitado, processado sequer.


E então o copo vazio? Quer dizer que não há nada no copo, que podemos enchê-lo à vontade, com tudo o que quisermos. No entanto não deixa de ser um copo, mesmo que vazio, um dia irá encher. Faz-me lembrar as crianças que tudo absorvem pois têm o "copo vazio".

Estas alusões servem muitas vezes para transmitir a ideia de limite em que as pessoas se encontram. O copo cheio pode simbolizar uma pessoa em ansiedade, do limite físico, mental e emocional... Já o copo vazio simboliza a disponibilidade, a tranquilidade a abertura, etc.

Mas...

Na realidade o copo nunca está vazio, a diferença é que, quando o enchemos de água vemos, quando retiramos a água ou outra matéria qualquer, esse espaço é ocupado pelo ar e todos as partículas, microorganismos que ocupam "esse espaço".

Por isso na realidade quando nos queremos esvaziar, não o estamos a fazer. Estamos a substituir o nosso estado, alterando-o por outro, melhor. E isso que na realidade acontece.

Sendo melhor, podemos ainda dar mais um passo. Tentar fazer como a palhinha... A palhinha não tem topo nem fim, nela tudo passa e nada fica. Ela não retém nada e por isso nunca enche. Por vezes está cheia, outras vazia, na realidade o seu estado reflete o presente. E é assim que devemos tentar ser, como uma palhinha. Lidarmos com o que nos rodeia sem nos fixarmos nas experiências, obstáculos e desafios. Simplesmente vivenciar, e agir de acordo com as situações.

Vivendo sempre, e apenas, o presente! Nada do que passou eu posso alterar, nada do que ainda não aconteceu me pode afectar. Apenas o presente interage comigo e é nele que devo viver.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Sobre o Dan Tian

O que é o Dan tian?
Para que serve?
Como o utilizamos?

Vamos começar por entender o significado através do caractér  - 丹田

Tian quer dizer campo, terreno, espaço. É muito empregue na agricultura (nongtian - campo cultivado; miantian - campo de algodão; feitian - terreno fértil...).
É curioso este termo ser empregue na prática alquímica, ou nem tanto. Ora vejamos; em primeiro lugar são vastos os casos na cultura chinesa em que se estabelecem analogias entre a natureza, o cosmos e o Homem. Isto porque se acredita que Homem e natureza obedecem às mesmas leis.

  • Os trigramas são um reflexo claro deste pensamento. Nos trigramas o yao inferior está relacionado com a terra, o médio com o homem e o superior com o céu. Os trigramas explicam a relação entre estes três níveis, mostrando também que o que há em cima também há em baixo. 
  • O símbolo do Taiji é outro dos casos mostrando como a dualidade está na base de toda a vida. Então há uma base energética comum em todas as manifestações diferenciadas. O mesmo princípio, a mesma lei

É mais fácil entender esta relação de "terreno"

Explorando então um pouco mais o caractér podemos supor que o terreno que temos pode ser cultivado e nele pode gerar o que semearmos. Sejamos nós suficientemente cuidadosos e trabalhadores para desenvolver a nossa colheita. Sabemos também que para que um terreno dê frutos, é também importante que os factores naturais sejam propícios, que chova na altura certa, que não faça demasiado calor, etc. Podemos então estabelecer que no "nosso" terreno há também factores externos que podem promover ou contrariar o desenvolvimento da nossa produção. Neste caso a forma como vivemos, as pessoas com quem lidamos, os estilos de vida que levamos.

Dantian - É muitas vezes traduzido, sobretudo nas tradições alquímicas como o campo do cinábrio ou a região do umbigo. Na prática alquímica, quando referido o Dantian, geralmente falamos então desta região entre o umbigo e a sínfise púbica. É na realidade na baixo ventre. Existem muitas figuras clássicas nos textos representando um ser nesta região como se o Homem gerasse um novo ser. Para concluir a localização, é fácil entender o Dantian como a região onde o feto se desenvolve na mulher. É na realidade toda essa região que tem um potencial energético enorme e, se for devidamente trabalhado pode gerar um novo ser. Pela via biológica gera uma nova vida, através da mulher e pela via energética gera o potencial máximo do ser espiritual.




Para que serve?

Já foram dadas algumas luzes no parágrafo anterior. O Dantian é um centro energético (na realidade existem 3! Shang Dantian, Zhong Dantian e Xia Dantian comummente chamado de Dantian). 
Este centro é a origem de toda a energia. É onde se situam os Rins que armazenam o Yang Qi e Yin Qi essencial, onde se armazena Jing Qi, a poderosa energia sexual que dá origem à forma e que se pode transformar em energias mais subtis e Yuan Qi, a energia ancestral.

É também a partir deste centro que se formam todos os canais, Du mai e Ren mai os famosos canais trabalhados na órbita microcósmica e os que veiculam as energias originais Yang e Yin respectivamente, bem como os restantes canais curiosos e, mais tarde, os canais designados de principais. Podemos então entender a importância desta região. É onde tudo nasce!

A importância de estimularmos o Xia Dantian ou o Dantian, é a de mobilizarmos a energia essencial e original por todos os canais, por todo o corpo. O objectivo é o de refinarmos esta bateria, de a activarmos, para que todo o corpo possa beneficiar da energia lá acumulada. 
O Dantian é O grande armazém de energia do corpo e é por isso crucial activá-lo se queremos que a nossa prática alquímica tenha lugar

Como o utilizamos?


Começamos pela respiração. Grosso modo existem três tipos de respiração:
  1. Torácica
  2. Abdominal
  3. Completa

A primeira é a geralmente utilizada no dia a dia por 99,9% da população. É mais curta e de ritmo mais rápido, eleva a energia para o plexo cardíaco (zhong Dantian). Tem vários efeitos; activa o nosso lado emocional, sobe o centro de gravidade e torna-nos mais impulsivos, reactivos.

A respiração abdominal é aquela que procuramos desenvolver nas práticas alquímicas. Nesta respiração distendemos o diafragma para que o ar possa preencher a região inferior da cavidade pulmonar. Uma das consequências físicas neste processo é a distensão da barriga, períneo e região lombar, na respiração. Na respiração abdominal temos ainda muitas variações, há no entanto duas mais conhecidas:
  • Respiração abdominal budista ou normal - Nesta respiração, quando inspiramos o diafragma distende, obrigando também à distensão do baixo ventre, períneo e região lombar. Quando expiramos o diafragma retorna à sua posição de inicial, libertando o Dantian e tendo como consequência o retorno do baixo ventre, períneo e região lombar às suas posições originais.
  • Respiração abdominal daoista ou invertida - Nesta respiração, quando inspiramos o diafragma distende, mas em vez de deixarmos livremente as restantes estruturas distenderem provocamos o movimento oposto, ou seja, retraímos o baixo ventre, períneo e região lombar. Na expiração tudo é libertado. 
Enquanto que a respiração budista é mais apaziguadora e reguladora, a respiração daoista activa de forma intensa a energia existente no Dantian. A primeira é a mais segura e aconselhável para aqueles que estão a iniciar a prática.

A respiração completa é aquela que preenche toda a cavidade respiratória, desde a cavidade inferior como superior dos pulmões, fazendo uso de toda a capacidade pulmonar. É uma excelente forma de energizar todo o corpo, bem como de serenar a circulação energética.

Após praticar a respiração é fundamental colocar a mente em todo este processo. Fazer uso da técnica respiratória já é muito bom, mas não é suficiente. Para que o Dantian seja realmente activado é necessário colocar a mente em todo o processo. E aqui se inicia uma caminhada complexa cheia de pequenas rasteiras. O entendimento deste processo pode levar anos, até mesmo décadas a acontecer. É no entanto simples! depois de o descobrir...

Colocar a mente na respiração, não é aplicar a qualidade da concentração na área que pretendemos (dantian), não é também aplicar a vontade de sentir dantian. Colocar a mente na respiração, ou melhor, no Dantian (em toda a sua tridimensionalidade) é observar, escutar, sentir tudo o que acontece nesta região e sem qualquer esforço mental ou físico, em puro estado de tranquilidade mental e relaxamento físico. Se o conseguirmos fazer, mantendo o foco no Dantian, vamos começar a sentir um novo mundo a ser activado. Como se tivéssemos um outro corpo escondido dentro de nós, que antes estava adormecido e agora acordou...

A mente e como trabalhar com ela na prática do Qi Gong, ou nas práticas de Nei Gong é fundamental!!! É, em meu entender, a chave que nos permite abrir as portas para o mundo novo, o nosso verdadeiro crescimento.