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sexta-feira, 16 de junho de 2023

O Dao e a minha caminhada alquímica Post 12 - Praticar não chega!

 Há muito que não escrevia nada. Não porque tenha desistido do projecto ou abandonado a prática mas sim porque a "prática" é "monótona".

Monótona???



Sim, na medida em que no mundo actual que vive também do consumo de informação, a prática interna é repetitiva, vive da disciplina e resiliência e não tanto da novidade constante. 


É também verdade que nestes últimos largos meses, para além de desafios profissionais, tenho combatido contra o sedentarismo e, SOBRETUDO, o vaguear da mente. E é sobre isto que gostaria de falar um pouco hoje. 


Qualquer prática, seja ela qual for, requer muita repetição, para que possa ser profundamente entendida e executada. Não é diferente nas práticas internas, diria mesmo que neste tipo de práticas é uma verdade impossível de contornar. 


Mas e se praticar não for suficiente???

Como o Sifu Adam Mizner diz; "a prática interna ocorre no interior"....

Ora quando quando praticamos Taiji, Meditação, Qi Gong... a prática é interna, certo? Para que a prática seja interna é FUNDAMENTAL que a mente esteja enraizada no corpo!!!

Aqui reside a chave que se insere na ignição! 

Se a prática for feita de forma ritualística, esta não terá resultados internos, apenas pequenas flores que qualquer prática externa pode também dar. 

Isto porque toda a prática requer a espansão da consciência e essa não no exterior de nós mas no interior!!! Porque antes de mais se há maior realidade que podemos conceber é a nossa existência, somos nós! Por isso não devemos colocar a nossa atenção no exterior, no céu, na estrela polar, no trabalho, nos pássaros, etc mas sim em nós!!! Mas este é um desafio complexo porque a mente não está habituada a ficar quieta. A mente está habituada a viajar de tema em tema, de estímulo em estímulo e sobretudo tudo externo a nós, porque o que reside em nós é.... Monótono!


Aqui encontra-se uma barreira enorme onde creio que muitos se deixam ficar. Isto porque pode demorar muito tempo, anos, até que consigamos sossegar a mente e dar poder à atenção. E mesmo quando, aparentemente, o estado de atenção começa a comandar a mente e esta a sossegar, nada está garantido (falo por experiência). Muito facilmente tudo volta para trás. 

Se há coisa que aprendi nestes últimos anos é que nada se conquista! Tudo resulta de um trabalho continuado e os estados que se atingem podem ser perdidos se a prática parar. 

Por isso digo, a prática é sagrada porque é ela que nos permite ir caminhando e transformando. A prática terá uma importância tão grande no início como no fim será ela que irá garantir o nosso crescimento. 

Mais tão importante como a prática é também o nosso estado de atenção. Podemos passar anos a praticar 1 ou 2 horas por dia, se não houver foco não esperem crescimento interno. A prática deve ser feita integralmente, quero dizer corpo e mente. Se o corpo trabalha a mente também e neste caso mantendo o foco total no exercício e em todo o seu propósito. Isto pode parecer fácil mas à medida que o tempo passa os desafios aumentam. Isto tudo na monotonia! Porquê? Porque os exercícios são os mesmos, os movimentos iguais, o foco igual... UMA SECA!!!

E esse é o maior desafio, ser capaz de manter o mesmo foco em algo que fazemos pela primeira vez, como na milionésima... 

Por isso, praticar SIM mas com a cabeça no sítio 

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

O Dao e a minha caminhada alquímica Post 11 - A importância da Contemplação

 Para quem, como eu, decide partir esta caminhada espiritual, há ferramentas que temos sempre de levar connosco. Como o alpinista leva casaco, gorro, luvas e todas as ferramentas de que necessita, também nós precisamos de ferramentas para esta árdua caminhada.

O caminho espiritual está cheio de espinhos e obstáculos, é inteligente estarmos bem preparados para o que aí vem.

Contemplação

A contemplação sempre foi uma forma de ajudar o caminhante espiritual. Uma forma de levantar o ânimo, de manter as forças, o alento. A contemplação pode começar por ser uma ferramenta motivacional, mas creio que tem capacidade para ser muito mais do que isso.

Podemos aprender a contemplar a paisagem, a comida, a casa, etc. Mas à medida que fazemos este exercício encontramos mais situação que requerem a nossa contemplação. Na realidade parece não haver fim ao sem número de "coisas" que podemos contemplar. Isto acontece porque a contemplação anda de mãos dadas com a consciência. Acredito na realidade que a prática contemplativa é uma janela da consciência, que nos permite estar mais "acordados" perante a realidade que vivenciamos.



Por isso a contemplação é, em meu entender, não só uma ferramenta útil, como indispensável para o caminhante espiritual pois ela permite uma aproximação ao Shen-espírito

Podemos contemplar todo o mundo ilusório que vivemos, mas podemos contemplar a nossa existência. O conjunto de milagres que têm de suceder a cada segundo para podermos vivenciar esta experiência. As trocas gasosas (oxigénio), as trocas químicas (neuronais), os impulsos elétricos (batimento cardíaco, função motora)... Todas estas funções a trabalhar incessantemente para que possamos estar disponíveis para vivenciar este mundo, sendo que tudo o que queremos é libertarmo-nos dele e regressar à origem.

Contemplar tudo isto é presenciar a magia deste mundo complexo e é incluir a ilusão na verdade, mas efectivamente verdade e ilusão provêm da mesma fonte. A contemplação une e por isso permite a transcendência da dualidade.

A contemplação é por si só uma prática muito poderosa que deve ser tida em consideração e praticada com devoção

segunda-feira, 21 de março de 2022

O Dao e a minha caminhada alquímica Post10 - As flores que brotam no caminho

 A prática interna é, em grande parte invisível e para muitos, completamente imperceptível. Essa é só mais um dos desafios desta caminhada solitária, a incapacidade do outro em nos compreender, pois acha que nada estamos a fazer embora observe todos os esforços nessa tentativa. A verdade é que o caminho interno é um caminho extremamente produtivo e transformador. Essa transformação é objectiva, pois cada um de nós, que se desafia nessa caminhada, sente em si o poder dessa transformação. 

"Um grão de areia é um grão de areia, existe. Nem por isso chama a atenção de alguém"

Nas transformações que vão acontecendo ao longo da nossa vida, algumas são perceptíveis aos olhos dos olhos, mas a maioria é apenas percebida por nós. É também por isso que, aos olhos externos, podemos desenvolver um certo fundamentalismo, pois as pessoas não conseguem entender racionalmente o porquê de estarmos vinculados a determinados princípios, práticas aos quais não atribuem especial valor

Hoje queria partilhar algumas das diversas flores que vão surgindo nesta longa caminhada que também decidi fazer.

Há já uns anos que fui despertando em mim uma certa sensibilidade interna, consciência maior do que se passa "cá dentro". Ainda sem conhecer bem esses mistérios, por vezes é me possível ajudar o corpo nas suas tarefas diárias e por vezes extenuantes.

Há uns dias fiquei com uma dor no joelho direito. Era uma dor interna e medial que me incomodava ao andar e em qualquer movimento que a perna fizesse. Tive um dia cansativo e quando me fui deitar a dor continuou presente...

Foi então aí que decidi colaborar com o meu corpo. Experiências anteriores motivam-me, nestas situações, a procurar um estado de relaxamento físico em que o corpo parece quase desapegar-se do corpo energético. Uma vez chegado a este estado, coloco a minha atenção na região que me incomoda.

Desta vez, para minha surpresa, não senti qualquer alteração imediata o que me fez pensar que nada conseguiria fazer...

Acabei por adormecer neste estado.

Na manhã seguinte, quando acordei a dor não estava lá! Voltei a senti-la mais tarde, já de pé mas com uma intensidade completamente diferente, e como já em modo "cicatrização".


Para alguns que possam ler este artigo, isto pode ser coincidência, fruto da minha cabeça, ou outra coisa qualquer. Mas para mim, que já tive outras situações semelhantes, trata-se de uma flôr atribuida por anos e anos de árduo trabalho que me permitiram aprender a colaborar com o corpo e a tirar melhor proveito dele. Estas pequenas flores que vamos colhendo aqui e ali, dizem-nos objectivamente que devemos continuar o caminho, que é por aqui. 

Fica aqui a partilha de um momento simples mas que às vezes nos leva a ter mais certezas ;)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

O Dao e a minha caminhada alquímica - post 09 - A resiliência

Há quase 20 anos que tenho contacto com o Daoismo, há cerca de 18 que fui introduzido ao Qi gong e há cerca de 15 que comecei timidamente as minhas práticas internas ou assim pensava eu...

Toda e qualquer prática que leve a um profundo entendimento quiçá mestria, necessita de muita insistência, persistência e resiliência.



Ao longo de todos estes anos essa tem sido a minha verdadeira batalha. Adquirir e manter a motivação necessária para uma prática regular, pois apenas desta forma é possível evoluir verdadeiramente

Nos primeiros anos tinha a ilusão que o importante era aprender muitas coisas, tomar contacto com estilos diferentes, professores diferentes. É certo que isso tem a sua importância mas talvez não aquela que acharia em primeira instância. Não é a diversidade que nos dá a profundidade, essa encontra-se na prática incessante de algo muito concreto. O que a diversidade acaba por nos mostrar é que ela é apenas e só isso, diversidade. E que com ela a única coisa que podemos esperar é superficialidade... Sim, por isso isso hoje se segue muito o princípio da especialização, pois dessa forma podemos-nos dedicar a algo de concreto e assim aprofundar o nosso entendimento. Claro que esta conclusão já requer um entendimento que em muito é importante na nossa caminhada, pois retira-nos desde logo uma parte da ilusão permitindo assim que o caminho se torne menos sinuoso e mais directo para alcançarmos o nosso objectivo.



Há cerca de 8 anos comecei a fazer essa preparação, a de identificar exactamente o que pretendo e estudar afincadamente o que decidi seguir. Essa decisão mostrou-se revolucionária no sentido em que me permitiu ter mais foco na minha vida, em todos os seus domínios. 
A partir do momento que tomei essa decisão, comecei a estudar mais o que já sabia (ou que julgava saber) e procurando um estilo completo que eu pudesse levar comigo por muitos anos. Isso manifestou-se também na minha prática clínica de Medicina Chinesa e na minha vida pessoal. 

Enquanto que o olhar externo veja eu estar a fechar-me e a ficar circunscrito a poucas coisas, o que eu constato é a evolução e crescimento, agora, de forma real. É dificil pôr isto em palavras, mas é muito diferente obter informação e até mesmo conhecimento, de obter entendimento. Na minha maneira de observar e sentir, é no entendimento que se dá um passo substancial no nosso crescimento, é quando o conhecimento se torna parte de nós e nós parte dele.

Vamos supor que construimos uma casa. Vamos precisar de cimento, tijolos, janelas, telhas, pavimento, etc, etc. Todos estes materiais são o conhecimento. Nós, somos o terreno onde esses materiais são depositados. À medida que os materiais vão sendo aplicados, com o tempo, a casa vai ganhando forma e vai-se fundindo com a terra também. Quando concluimos a construção da casa, temos um elemento, já não há mais o tijolo ou a janela; a telha ou o cimento, temos a Casa. Também não vemos a casa como implantada no terreno mas sim integrada no terreno. É assim que vejo o entendimento, quando o conhecimento já não é um material que se pode discriminar, mas sim é parte integrante de nós. A manifestação desse entendimento é muitas vezes feita sob a forma tranquila pois a convicção elimina o medo, sem medo não há insegurança, sem insegurança não há ansiedade, sem ansiedade não há lugar à exacerbação emocional.

Mas este texto é sobre resiliência e é sobre resiliência porque sermos capazes de nos "fecharmos" numa tarefa, quando o mundo nos convida diariamente para a diversificação/dispersão requer essa qualidade. Neste caso em concreto via requerer também que aceitemos abdicar de outras vivências e experiencias em prol do que achamos melhor para nós.

Com resiliência vamos conseguir aprofundar o nosso entendimento e descobrir que menos pode ser mais e que mais pode ser menos. Vamos aprender muitas coisas sobre a vida que não nos são ensinadas e desenvolver certezas que só nós podemos descobrir.

A caminhada é longa e todos terão de percorrer a sua. Mas certamente que todos nós ficaremos a ganhar se desenvolvermos esta qualidade


quarta-feira, 6 de maio de 2020

O Dao e a minha caminhada alquímica - post 08 - A sexualidade



Este é um tema muito debatido em todas as esferas, o Daoismo não poderia deixar de o tratar. O que é interessante é que o Daoismo parece ter duas visões distintas sobre a sexualidade. Uns que veem a sexualidade como uma ponte a transformação energética, outros como um furo que nos esgota a energia.

É sem dúvida um tema complexo, cheio de medos, tabus, paranoias e preconceitos. Outra coisa interessante é que o homem, sim sobretudo o homem tem um desejo intrínseco que lhe perturba o discernimento. O desejo sexual que o assola não permite que este tenha uma visão clara e imperturbável sobre o tema. Digo isto porque encontramos, sempre encontrámos espalhado na sociedade, um extremismo generalizado em relação a este tema. Os ferverosos defensores do celibato, afirmando que a sexualidade é um mal do qual nos devemos livrar e os outros que acham ridícula qualquer tentativa de abstinência sexual.

Vou tentar explorar a sexualidade de um ponto de vista Daoista.

"O desejo sexual é uma expressão da abundância de Jing Qi" 

Podemos ver isso facilmente nos jovens quando têm o instinto de se tocar sem sequer saber ainda o que estão a fazer… O homem verifica também isso com a chamada erecção matinal. estas sensações ou comportamentos que vêm de "dentro para fora". Então, quando Jing Qi atinge o seu "pico" a ovulação acontece, e o homem pode libertar sémen. Quando esta energia se encontra em grande quantidade é como um copo cheio de água que facilmente transborda.

A sexualidade no homem torna-se natural e saudável e na mulher (que desgasta o jing de forma cíclica sem envolvimento sexual) todo o seu corpo se apresenta equilibrado e plenamente fértil.

"o desejo sexual é algo de natural e sinal de VITALIDADE"

Na alquimia Daoista, para prolongarmos a vida e alcançarmos a libertação, o Jing é fundamental. Através de práticas específicas, transformamos o Jing em Qi e depois em Shen. Podemos imaginar o jing o gelo, o Qi água e o Shen o vapor de água. Se não houver gelo, é impossível obter água e consequentemente o vapor da mesma… Por isso é fundamental para os Daoistas conservarem o Jing para que todo o processo alquímico possa ocorrer. É na realidade o primeiro passo! Convervar a energia! Não perder….

Sim, porque segundo a filosofia Daoista o Jing pode perder-se, e o desejo sexual pode ser perigoso pois leva o ser humano a ter relações e consequentemente perder vitalidade...

É aqui que começam a surgir correntes diferentes. De certo que muitos já leram sobre sexualidade Daoista (Sou Nü jing é um dos clássicos mais conhecidos), pois é um tema muito estudado e até profícuo para todos nós…

Mas até que ponto a sexualidade é importante no caminho? 


  • Uma corrente diz que podemos atingir a libertação através da sexualidade. Existem inclusivamente seitas Daoistas que fazem uso do formas semelhantes à da prostituição para "adquirir" jing do parceiro e assim poderem desenvolver o seu estado energético. Os homens Dragão de Jade acreditam que através do voyeurismo estimulam o Jing para que depois o possam circular e transformar. A mulher, Tigresa Branca extrai o sémen (Jing) dos diversos parceiros para seu benefício.
  • Outra corrente assemelha-se mais às religiões ocidentais monoteístas em que o celibato é tomado como uma forma importante do caminho. Dá-se muita importância à "poupança" do Jing das mais diversas formas (pois este não se perde unicamente através das relações sexuais, parto ou ovulação), para usá-lo no processo alquímico.

Estas são duas vias que parecem até contraditórias e torna-se um pouco polémico por isso. Mas talvez nem seja...

Há uns anos estudei a sexualidade Daoista e descobri coisas fantásticas. É por isso para mim claro que o trabalho sobre a sexualidade tem os seus reflexos que nos podem inclusive transcender para outros níveis energéticos. Não é coincidência que a sexualidade está também ligada a muitas religiões e cultos… Mas hoje penso de forma ligeiramente diferente, pois a sexualidade mais do que se tratar de gastar, manter ou ganhar Jing é também um momento em que interferimos com o Shen. Se a mente estiver muito fixada na sexualidade (como aqueles que usam a sexualidade para o seu desenvolvimento energético) o Shen fica doente, a moral distorcida e o caminho deixa de ser visível e possível de alcançar. 

Estas nuances, à medida que se caminha, assumem uma importância enorme!

Uma das coisas que aprendi na sexualidade Daoista foi a conservar o Jing, no fundo esse é o primeiro propósito. Podemos fazê-lo através da abstinência ou, mantendo relações mas de forma particular para que o Jing não se perca.

Muitos consideram que isso é apenas (no caso do homem) o chamado coito interrompido, ou até mesmo a separação entre o orgasmo e a ejaculação. A mim parece-me muito mais do que isso. Embora a capacidade de deixar de ejacular mantendo o orgasmo permite ao homem tornar-se capaz de atingir vários orgasmos sem com isto perder sémen, isto diz apenas respeito ao prazer. Não digo que não possa interessar a muitos, mas para aquele que pratica a via do Dao, o caminho não nos leva à busca do prazer sexual, pois busca outra coisa bem diferente. O importante é ele conseguir, segundo a sexualidade Daoista, fazer subir o Jing para o Dantian superior. Esta técnica como podem entender facilmente não se refere a uma subida literal do sémen para o cérebro… Mas sim ao Jing que, na realidade, não é apenas o sémen!. E é aqui que reside o grande "problema" Reduzir o Jing ao sémen ou à ovulação. O jing é muito mais do que isso, encontra-se noutros locais e pode ser trabalhado e afectado de diferentes formas. Mas voltando ao tema, é suposto pôr o Jing a circular pelo Du mai para que possa ascender até ao cérebro. Estas são técnicas violentas e perigosas que podem trazer resultados desastrosos, ou apenas a ilusão de que alguém está a usar o prazer para se iluminar...

Se na alquimia Daoista procuramos o desapego total, se procuramos viver de acordo com a brisa soprada pelo Dao e por isso eliminar a nossa vontade criada para voltarmos ao movimento primordial não podemos seguir a exploração sexual nem nos devemos deixar obcecar pelo celibato. Pois em qualquer uma delas o distúrbio causado pode causar danos irreparáveis...

É muito importante relembrar que buscamos a quietude suprema e a sexualidade facilmente nos leva ao turbilhão emocional. Não é por isso proibido e é aí, que nos vale a sexualidade Daoista. Podemos viver naturalmente a nossa sexualidade de forma ainda mais sensitiva (ao contrário de prazerosa) num plano de quietude. 

Diz-se que a pessoa não deve transpirar, o coração deve permanecer tranquilo e ao terminarmos a relação amorosa devemos-nos encontrar com mais vitalidade.

Se o fizermos então não nos devemos preocupar com mais nada. Devemos continuar o nosso trabalho alquímico e certamente encontraremos frutos ao longo do nosso caminho. À medida que o nosso trabalho for ocorrendo, naturalmente o desejo se irá dissipar (não porque o Jing está esgotado para porque ele circula para o Dantian superior ao invés de ficar "preso" no Dantian inferior). Nesse momento podemos dizer que nos libertámos do nosso "instinto animal e biológico" e que somos sexualmente livres.

Na sexualidade Daoista, a relação é subtil, os sentidos despertam lentamente, os orgasmos ocorrem de forma menos "intensa" mas de forma mais prolongada e profunda, tornando a experiência sexual única. Durante a relação não surgem pensamentos fortes e agressivos, não há agitação mental ao invés é vivida um pura tranquilidade com o parceiro(a), em que são partilhadas sensações. É um acto de contemplação do outro mas também de nós.

A sexualidade deve então ser vivida com naturalidade e ao mesmo tempo analisada. Estaremos a vivê-la de forma tranquila? Será ela fonte de ansiedade, esgotamento ou obcessão? Estará a sexualidade a moldar a minha visão das coisas?

O que é o desejo sexual?

Tenho entendido nos últimos tempos que existem pelo menos duas formas de desejo sexual à qual devemos estar atentos. Porque gosto de por as coisas nestes termos vamos dizer que um desejo é interno e outro externo, yin/yang. Um desejo deve-se à abundância de Jing outro deve-se a condicionantes externas, ao Shen.

Aqui creio que reside uma grande rasteira, talvez o maior perigo de perda de Jing. Será que o impulso sexual que estamos a sentir é verdadeiro ou induzido? Será que ele vem da nossa vitalidade ou dos nossos pensamentos ou provocação de outros? Isto confere toda a diferença.

Quando a energia é exuberante esta manifesta-se… Há vários exemplos deste acontecimento. 

Por exemplo quando temos uma fome extrema em oposição àquele snack que nos cativou ou aquela fatia de bolo que quero tanto... Enquanto no primeiro caso há tanto necessidade do corpo em obter energia como o fogo do estômago se encontra activo (fornecido pelo Chong mai), no segundo caso o corpo não sente necessidade e muitas vezes o fogo do estômago encontra-se até debilitado (sempre que comemos o Qi do estômago desgasta-se e este precisa de tempo para se repor). Então se comermos com fome estamos a respeitar o nosso corpo na integra, se comermos sem fome estamos a atacá-lo e degradá-lo. O mesmo se passa com a sexualidade.

É então fundamental aprendermos a discriminar o desejo interno do externo. O desejo que se desenvolve na pura vitalidade do desejo influenciado por aspectos culturais, imagens mentais e outras influencias ainda mais complexas... Se aprendermos a identificar as diferenças estamos mais perto de continuar a nossa caminhada livre de problemas. Podemos se calhar ver de forma diferente o que foi falado acima. Verificamos com facilidade a subjectividade de muitas coisas. Não basta dizer Sim! celibato ou Não! vamos explorar a sexualidade. A vida está recheada de caminhos tortuosos e é fundamental sermos conscientes, humildes, destemidos e corajosos para que possamos ultrapassar os diversos obstáculos que muitas vezes, só podem ser ultrapassados por nós pois são realidades únicas e que ninguém conhece. Este é outro perigo, tendemos a criar empatia com outras pessoas que vivem "a mesma coisa", mas na realidade são coisas parecidas. Ora, "coisa parecida" é   de "mesma coisa".

Espero, sinceramente que esta publicação tenha contribuído de algum modo que não tenha sido demasiado enfadonha ;)



quarta-feira, 29 de abril de 2020

O Dao e a minha caminhada alquímica - Post 07 - A separação da mente

Para quem se dedica à prática interna, a mente está sempre presente. Para alguns será tudo, para outros não. Dependerá sempre da visão única de cada um e se, sobretudo, se a visão é mais religiosa ou espiritual.
Considero de facto importante a forma como vemos as coisas, mas no final tudo são palavas, pois a Verdade é a Verdade e não há palavras que A possam descrever ou adulterar. Podem apenas afastar-se dela...

Para mim, neste período a mente tem quase toda a minha atenção. É nela que me centro na minha introspecção e análise.

Nos últimos meses ou anos tenho-me debatido sobre as diversas nuances da mente. Os pensamentos, as obsessões, as intuições e outras coisas estranhas com que nos vamos deparando no dia a dia como uma possível telepatia...

Tento ir analisando aquilo que vou percebendo e, sobretudo, decompondo para perceber se será real ou ilusório. Sim! Porque a mente prega-nos muitas partidas.

Porque há muitas coisas nas quais queremos acreditar e outras que abominamos. Isso tolda o nosso pensamento e molda as nossas conclusão em nosso benefício.

É crucial entendermos isto! É mesmo muito importante. Pois a verdadeira liberdade chega quando nos libertamos do maior carcereiro, NÓS!

É fundamental estarmos GENUINAMENTE comprometidos com a Verdade, porque muitas vezes Ela não nos é conveniente. Quando a nossa busca não é sincera, tendemos a mentirmo-nos a nós mesmos. É como nos encontrarmos numa corrente da qual não conseguimos sair. Quando parece que estamos quase a sair dela, eis que somos puxados de novo para o centro da mesma.

É então fundamental que nos entreguemos à busca da Verdade! Se queremos entrar verdadeiramente na prática interna este é um requisito! Caso contrário tudo não passa de uma ilusão.

Nesta fase das nossas vidas vivemos tempos muito confusos de pandemia em que as nossas liberdades parecem ser postas em causa. 
Exacerbam-se os extremos; aqueles que acham que deveríamos estar completamente isolados uns dos outros, parados e unicamente preocupados com o virus que nos assola e, aqueles que acham que isto não passa de uma "mise en scene" por parte dos grandes líderes mundiais com o propósito de nos controlar a todos. 

Não tenho qualquer interesse em debater o que estará certo ou errado, até porque creio que nunca encontramos a verdade nos extremos. O importante nestas tomadas de posição é, mais uma vez, cada um fazer o seu exercício e tentar discernir o que é realmente genuíno e o que é fruto do seu ego medos e paranoias. 

Dei este exemplo porque nas crises tudo se torna mais visível mas na verdade este tipo de comportamento tende a ocorrer diariamente. Esta fase é também um alerta para o que se passa connosco diariamente.

Dito isto, retomo o inicial… A mente é realmente um universo em si mesma. Contém ilusão, verdade, memória, medo e ambição, desejo e intuição. Quando começamos a prática interna são muitas as transformações que ocorrem. Para aqueles que já iniciaram a sua prática, saberão do que estou a falar. Para os que ainda não começaram posso dar uma ideia.

A prática produz SEMPRE alterações no corpo, essas alterações ocorrem de forma única em cada um pois cada um se encontra de forma particular. Mas de forma geral a prática interna produz uma diminuição das dores, aumento de flexibilidade articular, aumento de flexibilidade. Com o continuar da prática as alterações continuam a ocorrer, o sono melhora tornando-se mais profundo e reparador e as emoções começam a tornar-se mais brandas e a mente mais tranquila. Em todos os aspectos no nosso corpo as alterações permanecem de forma contínua, com altos e baixos, à medida que continuamos nesta caminhada. Há momentos em que tudo parece estar a desabar, quando na verdade, o que está a acontecer é a exteriorização de muitos desequilíbrios recalcados e bloqueados no nosso corpo. Essa é mais uma razão pela qual devemos seguir Um método e devemos estar certos do que estamos a fazer para não abandonar o caminho à minima contrapartida.

Nos últimos meses ou anos tenho-me debatido sobre as diversas nuances da mente. Os pensamentos, as obsessões, as intuições e outras coisas estranhas com que nos vamos deparando no dia a dia como uma possível telepatia...

Nos últimos anos tenho tentado "ler" as nuances da mente. O que se passa na minha mente. Os pensamentos e sensações. 
De onde vêm elas? 
Virão de mim ou são induzidas por outros? 

E o que sinto em relação aos outros, são preconceitos ou é efectivamente uma leitura do outro?

Estas perguntas, e outras, acompanham-me diariamente. Pouco a pouco começam a chegar algumas respostas.

Falo agora da minha experiência particular sem querer induzir ninguém a conclusões precipitadas baseadas na minha experiência particular.

Muitas dúvidas ainda neste percurso que muito lentamente me vai clarificando e retirando a névoa que possuo na mente. À medida que a percepção se vai desenvolvendo há uma espécie de sensibilidade que é na realidade muito objectiva e clara para quem a vive. 

Tenho concluído que foram muitas as vezes em que a "imagem" primária que tinha das pessoas com quem contactei se alteraram na maioria das vezes. O que é que isto me diz? Muitas das ideias mentais iniciais não passavam da tentativa infrutífera de analisar as pessoas, com base nos meus preconceitos. O tempo e a humildade veio a fazer-me ignorar estas "indicações" mentais dando liberdade ao surgimento de outras faculdades.

Outra coisa interessante é a forma como os pensamentos ou ideias surgem na nossa mente. É tão subtil que é praticamente impossível discernir a sua diferença. 

Tenho estado muito atento e vejo hoje que existem pensamentos que não possuem "a mesma origem". Quero com isto dizer que enquanto uns aparecem devido a um novelo de experiências passadas, influências de familiares e amigos ou coisas que vimos na internet ou TV; há pensamentos que parecem surgir de forma directa sem qualquer influência de qualquer ordem. Creio que este último tipo de pensamento se enquadra na Intuição. Uma forma de informação incorruptível e sem qualquer deturpação que não foge à verdade e por isso nos dá uma confiança inabalável e indestrutível. Mas a questão é ter a certeza de que esse pensamento é realmente um pensamento intuitivo.

*pensamento nem me parece a palavra mais correcta quando a tentamos relacionar com a intuição, pois o pensamento congrega reflexão e neste caso ela não existe.

Esta pesquisa irá certamente ocupar grande parte da minha vida, senão toda. Na realidade tudo acontece em simultâneo. Quando falamos de mente, falamos de corpo também. Quando nos debruçamos no corpo a mente também se altera e molda...

Esta é apenas uma partilha do que tenho vivido nos últimos anos e que em muito decorre das práticas que tenho feito.

Espero que não tenha sido muito enfadonho ;)

domingo, 5 de abril de 2020

A importância do corpo físico

Alguns, na busca da sua espiritualidade acabam ignorando a importância do corpo físico. Isto porque elevam o Espírito em deterimento da matéria.
Dao

Na óptica do Daoismo o corpo físico é também importante, para não dizer determinante no próprio processo alquímico. É-o porque ele possibilita a transformação da energia densa em energia subtil.

Há aspectos materiais que tendem a evaporar-se neste trabalho. As "necessidades" mundanas que sentimos muitas veczes como essenciais à vida, desaparecem. É por isso que o Homem que segue a via espiritual se desliga progressivamente da sociedade actual em que vivemos, mantém-se contudo presente.

 Podemos pensar que para alcançar a iluminação precisamos de meditar, meditar e meditar. Creio profundamente que é essencial, mas não chega. Temos vários exemplos de mosteiros onde foram desenvolvidas técnicas de exigência física para que os monges pudessem manter o seu corpo. Porquê?

Será que estavam preocupados em exibir um corpo musculado?

Será que faziam passagem de modelo para ver que era o mais belo?

Claro que não! Após horas e horas de meditação, os seus corpos tornavam-se debéis e adoeciam. E a doença não é compativel com a espiritualidade. Desenvolver o espírito, não obriga à negligência do corpo. Eu diria mesmo que apenas mantendo o corpo a verdadeira espiritualidade pode florescer. O que deve ser negligenciado são as "necessidades" em que o corpo tanto nos inquieta.

Ao manterem o corpo saudável e forte, os monges já podiam meditar sem dor, sem desconforto nem debelidades.

Claro que existem muitas correntes espirituais. Umas negligenciam por completo o corpo, outras não. Outras fazem ainda uso dos desejos carnais no trabalho espiritual.

Estou aqui a expressar a minha opinião e defendendo mais uma corrente do que a outra. Não tenho a veleidade de de dizer que as outras estão erradas, quero apenas tentar argumentar porque acho esta mais acertada.

Do ponto de vista Daoista podemos facilmente compreender o que quero dizer. Quando praticamos alquimia Daoista o objectivo é, claro está, alcançar o Dao. Transcender a dualidade e entrar em contacto com a unidade.

O Dao De Jing, de Lao Zi começa da seguinte forma:

O Dao que é pronunciado não é mais o Dao eterno;
O nome que foi escrito não é mais o nome eterno.
O inominável é o princípio do universo cósmico;

O Dao De Jing é um texto de estudo infinito. A sabedoria presente no texto é incalculável e apresenta diferentes camadas de profundidade. É por isso rídiculo determinar apenas um significado para um capítulo ou texto...

Dito isto, retiro deste texto o seguinte:

O Dao que é pronunciado não é mais o Dao eterno - A discriminação é efémera, a mente é incapaz de apresentar o Dao

O nome que foi escrito não é mais o nome eterno - O Dao não é traduzido por palavras, a tentativa de o descrever cria a ilusão

O inominável é o príncipio cósmico - O Dao é algo que nem conseguimos proferir pois, na realidade não o conseguimos entender.

Voltando agora à temática...

Dar prioridade ao desenvolvimento espiritual em deterimento do corpo físico diz-nos desde logo uma coisa... Discriminação, dualidade, separação logo não podemos alcançar o "Dao eterno"

Nós somos um só corpo, e só assim poderemos sonhar em alcançar o Dao, trabalhando para a Unidade

Então nem sequer se trata de cuidar do corpo e tratar da mente ou Espírito… Trata-se de cuidar de nós, de nos esquilibrarmos, de nos sublimarmos e de transformarmos o nosso Corpo numa substância mais etérea mais próxima do Dao.
Em alguns textos alquímicos é discrito inclusivé que a partir de determinado ponto de desenvolvimento o corpo muda de aspecto. Pois a transformação ocorre a todos os níveis.

Então;
a prática não tem hora
a prática não início nem fim
a vida é a prática

não se trabalha o espírito
não se trabalha o corpo
trabalha-se a integridade do corpo

só assim caminhamos para a unificação
apenas desta forma poderemos alcançar o Tai Ji
e enfim observar o Dao


Em jeito de conclusão dizer que não devemos desprezar o nosso corpo. Dar importância ao corpo não é ser-se materialista. Não tem nada a ver. Cuidar do corpo é cuidar da nossa casa, cuidar da parte Yin da nossa essência. Apenas equilibrando Yin e Yang podemos alcançar o Tai Ji. Apenas alcançando o Taiji poderemos observar o Dao.

Por alguma razão as práticas Daoistas conhecidas integram movimento, respiração… O objectivo é o da UNIFICAÇÃO! Não se pretende separar nada, qualificar nada… Apenas harmonizar, unir, congregar. E isto ocorre em todos os planos imagináveis e inimagináveis.

Esta é a beleza no Daoismo, a UNIFICAÇÃO! Na nossa vida isso reflete-se também com a libertação da crítica, no fundo da discriminação pois este príncipio afasta-nos do Dao.

O Dao que é pronunciado não é mais o Dao eterno

sexta-feira, 20 de março de 2020

O tempo do ermita...

No Daoismo procuramos a unidade, a transcendência do mundo dual, o abandono da ilusão e o encontro com a realidade suprema.

Neste momento estamos a viver uma fase de grande sofrimento, o medo e a ansiedade crescem em função das notícias desta pandemia que está a afectar o mundo inteiro. Estamos centrados no poder destrutivo deste ser vivo que está em franca prosperidade.

Sim, todos temos de tomar as medidas recomendadas, fazer de tudo pela nossa saúde e pela saúde de todos os que nos rodeiam. Sim temos de ser uma verdadeira comunidade.

Esta pandemia está a alertar-nos para a importância de modelarmos o nosso comportamento também pelos outros, obrigando-nos a abandonar o individualismo em que a sociedade moderna vive.

Este é um aspecto da experiência recente.

Mas há mais!

Um pouco por todo o mundo, foi-nos pedido por segurança, ficarmos o máximo em casa ou em locais isolados. 
Hoje o planeta agradece e respira como há muito não o fazia...

Neste tempo em que somos Ermitas forçados, devemos aproveitar a situação para nosso favor. Devemos aproveitar, de forma produtiva o facto de estarmos com mais tempo, para o tornar útil!

E o que vamos fazer? 
Bom este é um blog sobre Daoismo :) então… Vamos praticar!!!

Hoje temos ou não temos tempo para a nossa introspeção? Para respirarmos, Para movermos o nosso corpo de forma integral?

Segue aqui a minha humilde recomendação, para TODOS os dias

Ao acordar - Desbloquear todo o corpo para que o Qi circule e que possamos eliminar a estagnação espalhada pelo corpo. Neste momento é importante aquecermos os músculos e alonga-los. Devemos também aumentar a mobilidade das nossas articulações.
Se quisermos fazer ainda mais, recomendo o estilo Yi jin jing ou estiramento de canais, neste último poderei ser-vos útil se assim desejarem...

A meio da manhã - Devemos fazer alguns exercícios para regularizar as funções básicas do Qi no corpo. Existem vários deixo aqui um...



Após o almoço - O ideal a seguir ao almoço é repousar, deixar o corpo digerir, transformar e absorver. Devemos aproveitar este momento para ensinar a nossa mente a escutar o que acontece dentro e a ignorar o que acontece fora. Um excelente treino meditativo. Verão, que a digestão não só será mais rápida, como muito mais produtiva (melhor assimilição produzindo mais energia, melhor saúde)

Para quando a digestão terminar
Praticar um estilo de Qi gong à vossa escolha. Para quem não conhece nenhum o Baduanjin deve ser escolhido (mais uma vez para quem desejar poderei ser-vos útil).

A meio da tarde recomendo então começar o treino meditativo. 

Comecem pela postura de Wuji


Passem então para a meditação...



É importante criarmos rotina e disciplina. É importante praticarmos TODOS OS DIAS, não interessa se um dia fiz 1 hora de Qi gong e 2 horas de meditação se nos restantes não fiz nada. A prática é para o nosso corpo como um construtor para um obra. É no dia a dia que se vai construindo e transformando a obra, seja esta o nosso corpo ou um lindo edifício.

Já agora, esta é também uma forma preventiva extraordinária! Não apenas para o problema que vivemos actualmente como para tudo de uma forma geral. Se é a panaceia? Não creio, mas na realidade se melhorarmos a condições internas do nosso corpo, estamos a potencia-lo. Estamos a torna-lo mais forte, mais resistente. Então estamos mais saudáveis, estão à espera de quê? ;)

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

O Dao e a minha caminhada alquímica - Post 06 - Aproveitem a viagem


“aproveitem a viagem” – Sifu Adam Mizner


No início da minha caminhada consciente, comecei pelo estudo de textos daoistas, contemporâneos e clássicos. Ainda antes disso havia sido iniciado na prática do Qi gong por mestre chinês transportava todo o seu entendimento através da sua linhagem.

Este foi o meu início. O que me levou a decidir começar esta longa caminhada foi a minha mente obstinada. Racionalmente entendi parte da profundidade de toda esta forma de vida e decidi por isso tentar absorve-la.

Vim contudo a entender mais tarde que sem entrega nunca conseguiremos alcançar o que pretendemos. Pois para que o corpo sofra as alterações necessárias para nos transcendermos é fundamental que estejamos de corpo e alma e não apenas com uma parte…


Esta frase simples e aparentemente superficial “aproveitem a viagem” refere-se a isso mesmo. Mais do que o treino ser uma tarefa/obrigação para podermos chegar a algum lado, o treino deve ser o nosso objectivo! Devemos estar apenas focados no treino e não nas suas consequências (o que pretendemos). O treino deve ser uma fonte de alegria e satisfação e não o picar o ponto para mais tarde retirar os louros. E é na realidade com esta postura que as consequências do treino (o nosso objectivo) se tornam mais possíveis de acontecer, pois estamos de “corpo e alma”


Partilho o que sucedeu comigo há dias…

Após um fim-de semana difícil em que fui privado de um bom sono e também estive sujeito a níveis de stress acima do normal, senti-me mal…

No domingo senti-me literalmente mal… Não chegou a ter um impacto físico importante pois identifiquei o que estava a suceder a tempo, mas posso dizer o meu coração não estava muito bem…


Ao sentir-me assim recorri ao meu melhor remédio, o Nei gong. Saí e fui para o jardim, era já noite quando isto aconteceu.

Cheguei mesmo a sentir um misto entre dormência e pequenos choques entre o peito e ombro. Estava nervoso por dentro e já um pouco fatigado devido à agressão que induzi a mim mesmo após me exaltar…


Comecei então a minha prática habitual começando com Ji ben gong, exercícios de aquecimento e abertura do corpo. Depois fiz Zhang zhuan para tentar recuperar um pouco toda a energia perdida tendo depois praticado alguns exercícios de Song gong bem como para reforçar o Dan tian.

1 hora depois tinha o corpo seguro. A tensão desapareceu, a energia voltou a circular no corpo tendo atingido os níveis mínimos para que me pudesse sentir bem. Sentia-me contudo cansado, mas calmo.


Pude verificar o que os clássicos dizem sobre as emoções e a importância de as dominarmos, sob o perigo destas poderem ser destrutivas.


A nossa prática deve tornar-se parte integrante de nós. 
Um prazer, uma rotina, um tratamento…

Devemos ser disciplinados? Sim! Mas é importante também que no meio da rotina e disciplina haja espaço para o bem estar, pois se isso existir o corpo reage rapidamente e as transformações são efectivas!

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

O Dao e a minha caminhada alquímica - Post 05 O caminho


Sem dúvida que o maior desafio de todos, quando decidimos enveredar pelo caminho da transcendência, é a disciplina. Ser capaz de continuar o trabalho de forma regular e consistente, motivado e focado sem nos deixarmos desviar do nosso objectivo.

Num mundo em constante mudança e em que somos constantemente estimulados a seguir diferentes direcções é nos exigido um grande trabalho para que consiguemos permanecer com o nosso plano sem o mínimo desvio de atenção



No clássico alquímico Escrituras preciosas dos 9 realizados é dito o seguinte:


…”a alquimia não funciona se fores inconsistente. Se a praticares quando estiveres bem disposto, mas depois distraído pelos acontecimentos e negligente quando a disposição desvanece, então o teu espírito é influenciado e a tua energia desaparece quando não estás a praticar, como alguém que não tem prática alguma. Mesmo que voltes a ter disposição para voltar à prática, será como fiar com demasiados fios em falta, não terá qualquer eficácia.


Gostamos de pensar que devemos seguir a nossa motivação e não nos devemos forçar, relativamente à mente. Este excerto mostra o quão erradas estão as pessoas que pensam assim. O processo alquímico é um processo de construção ou reconstrução. Não pode ser parado a metade, não deve ter pausas nem distrações. Aquele que envereda o caminho deve saber de antemão, o quão difícil é e a tamanha exigência que lhe será pedida.


”… neste processo, a não ser que te foques no desenvolvimento da tua força de vontade, é altamente provável que desistas algures no caminho. Então deves ter uma determinação inquebrável, pensamento persistente, uma energia; primeiro liberta-te de ti mesmo…”


Esta é, a meu ver uma grande ilusão vivida por todos os que praticam, como eu, a via alquímica, mas existem outras…


“…primeiro liberta-te de ti mesmo…”


Esta ideia é de tão profunda e complexa que nos obriga a fazer uma enorme reflexão.


O que será libertar-me de mim mesmo?


Deixo que essa reflexão seja feita por cada um de vós…


terça-feira, 16 de julho de 2019

O Dao e a minha caminhada alquímica - Post 04 O sofrimento

O meu primeiro contacto com a prática interna foi em 2002 quando comecei a estudar chinesa. Na altura tive dois professores marcantes. Enquanto que um me ensinou as bases da medicina chinesa transportando no processo toda a riqueza filosófica desta ciência, o outro me aprofundou o trabalho alquímico através do Qi Gong. 

Na altura era tudo muito estranho/mágico para mim e pouco pude beber de tanto conhecimento que me foi passado. 

Começo o post desta forma por uma razão. As pessoas com as quais tenho contactado têm a noção que a prática interna promove uma melhoria gradual e evidente em quem o pratica. Eu quero dizer não! Não é bem assim…

Sim a prática interna tem o propósito de nos elevar, transformar na direcção do Homem superior ou verdadeiro 真人 (Zhen Ren). 

Mas embora esse seja o propósito isso não quer dizer que o caminho será cada vez melhor e mais florido. Na realidade a caminhada está recheada de desafios. 


Quero falar disto porque são muitas as pessoas que desistem ao primeiro obstáculo. São muitas as pessoas que duvidam e que põem em causa o método pois acham que se possuem uma prática interna ele deve servir para se sentir melhor e nunca pior. Pois, mas não!

A prática interna não serve os interesses do ego. É um método que nos eleva, dispersando as impurezas e criando condições para que o corpo se transforme

Na realidade todo o praticante que se entrega e que é sincero, vai sofrer. E o processo de sofrimento ocorre pela resistência que nós próprios oferecemos no acto de nos libertarmos de algo. Este sofrimento vai desde situações físicas como emocionais e mentais. 
É muito comum e por isso muito provável que aconteça em certa medida a todos os praticantes. 

Mas então sofrer é sinal de pratica interna? Não!

Obviamente que esta não pode ser uma forma de validar a nossa prática, até porque é muito possível que se ela for errada nos provoque sofrimento mas destrutivo…

O que nos deve guiar é o método. É fundamental ter um método bem definido e um mestre a quem possamos recorrer. 

Mas é muito importante estar preparado para o sofrimento pois este estará certamente presente na caminhada de cada um.

Nos meus anos de prática têm-me surgido diversas coisas, algumas muito complexas e que me levaram a duvidar da minha prática, mas a persistência e o tempo foram-me provando que eram apenas consequências da transformação do corpo. 
Hoje, olhando para trás e para o que aí virá, vejo como inevitável o sofrimento. Na realidade quando nos queremos "libertar" temos de entender que isso exige um esforço, esse esforço traduz-se sob a forma de sofrimento. Mas quando a libertação ocorre o estado alcançado justifica todo o esforço.

O caminho não é fácil, mas sem dificuldade o objectivo é inalcançável

terça-feira, 23 de abril de 2019

O Dao e a minha caminhada alquímica - Post 03 A disciplina

Disciplina - a palavra tabu

A prática interna ou Neigong (内功) é um conjunto de tudo e de nada, mas como o Mestre Adam Mizner simplifica, é o trabalho ou transformação que ocorre no interior.

Já abordei especificamente o conceito de Neigong anteriormente e por isso, o meu objectivo neste artigo é de falar da disciplina.

Todos nós queremos algo na vida, qualquer pessoa tem um objectivo na vida. Na realidade todos nós temos vários. Temos objectivos diários, temos objectivos não exigíveis (coisas que gostaríamos de alcançar mas que aceitamos não conseguir) e objectivos que orientam a nossa vida. Diria que os últimos são mais marcantes.

E quando alguém tem um objectivo só há uma forma de o conseguir, pelo menos se estar sujeito à fortuna, é trabalhando arduamente para o alcançar. Todos sabemos disso. 

Na prática interna não é diferente. Se há aprendizagem a retirar da prática interna é a exigência que esta nos obriga para que a transformação seja real e consistente.

Bem sei que muitos consideram que a prática interna deve ser feita com um fundo de motivação (estou totalmente de acordo), mas o problema é então estabelecer o que é a motivação? Pois muitos praticam quando estão bem dispostos, quando estão com o "feeling", quando se encontram numa floresta mágica ou numa praia paradisíaca.

Para que fique bem clara a minha opinião, toda e qualquer prática é benéfica para o praticante. Praticar um dia e melhor que não praticar nenhum… Sem sombra de dúvidas
Mas será eficaz (para cumprirmos com o nosso objectivo pré-estabelecido, essa sim a verdadeira motivação) praticar de vez enquando quando "nos sentimos" dispostos ou motivados?

Creio que não. Em primeiro lugar porque essa aparente motivação é precisamente aquela da qual nos devemos libertar é uma faceta do desejo. Uns dias queremos outros não.
Algum pai se imagina uns dias estar com os seus filhos outros não?
alguém pondera uns dias trabalhar outros não?

Ora por princípio, essa postura não se apronta como mais correcta. Mas podemos ir ainda mais longe. Para que a prática interna seja realmente produtiva ela deve decorrer com consistência e continuidade. Estamos a contruir um corpo novo e para tal não podemos parar a obra e recomeçá-la noutro dia qualquer.
O que acontece a uma obra parada? os materiais começam a deteriorar-se e quando quisermos recomeçar, não recomeçamos do ponto em que paramos anteriormente pois temos de voltar a reabilitar o material estragado. Pois o nosso corpo é semelhante.

É por isso que a disciplina deve guiar aquele que encontrou a sua motivação e que definiu o seu método. Deve trabalhar arduamente na busca do seu objectivo não questionando pequenos ganhos ou perdas, simplesmente focado na sua prática. Na realidade a disciplina é parte do processo transformador.

E é precisamente disso que estou a falar e sobre a qual quero partilhar.

Nos últimos anos tenho combatido os desejos que me puxam para um lado e para o outro, que me mantêm na instabilidade. Tenho rumado no sentido da estabilidade da prática que é também a estabilidade da mente. A prática regular permite alcançar resultados a médio prazo mas garante, a curto prazo, um domínio sobre o desejo, a tentação e o sedentarismo. De uma forma mais geral, a disciplina descola do nosso corpo a fervura da emoção. A disciplina liberta-nos dessa escravidão e instabilidade.

Muitos dirão que a disciplina é sinal de obstinação, fanatismo. Mas não é o mesmo.

A disciplina é a capacidade de prosseguir com uma tarefa de forma regular e consistente e consciente

Poderão também argumentar o mais importante é praticar motivado mesmo que assim esta se torne irregular, ao contrário da pratica diária mesmo com períodos em que nos encontramos "contrariados". É verdade que se eu estiver num dia não, a prática desse dia sofrerá as devidas consequências mas existem ganhos inabaláveis. É que "água mole em pedra dura tanto bate até que fura", já diz o ditado português. E quando o nosso corpo (mente) se habitua à prática, deixa de o questionar. Logo deixa de ser um obstáculo. Quando vamos para a nossa prática diária, a mente deixa se ser um inimigo e passa a posicionar-se de forma neutra permitindo assim a que esse momento frutifique.

A minha prática tem me mostrado que a disciplina é a chave para a transformação, a consistência da prática, a entrega e sinceridade como que a fazemos.

Mas aqui, é também importante não resumirmos a prática interna a uma postura física ou a um exercício particular. A prática diária pode ser executada de diversas formas embora seja recomendável a existência de um método como fio condutor.

Se analisarmos os princípios das diversas artes marciais veremos como a disciplina se apresenta como uma qualidade básica. Para quem já praticou artes marciais ou pratica, sabe do que falo. Mas também, como referi acima, podemos verificar a sua importância em qualquer outro aspecto da nossa vida que se mantenha a médio ou longo prazo. Em todas essas situações nós podemos verificar que aquele que é dotado de resiliência, sacrifício consegue levar "a água ao seu moinho". 




Em todos estes anos a que me tenho dedicado às práticas internas posso constatar que as transformações são inúmeras nos mais diversos aspectos, mas aqueles que mais valorizo são os que se estendem a todas as esferas da minha vida e essas são as transformações da mente

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O Dao e a minha caminhada alquímica - Post 02 O enraizamento

Nestes últimos anos tenho desenvolvido o enraizamento, um termo bastante usado nestas práticas.
Mas o que significa enraizamento?
Enraizamento é a capacidade de fazer descer o Qi para a parte inferior do corpo, para as pernas e pés. Treina-se inclusive a descida do Qi para o solo penetrando-o
Esta e uma definiçao clássica que abre a possibilidade a várias interpretações e com estas, a tendência à dispersão e ilusão.

Vou partilhar o meu entendimento de enraizamento...
Existem, para mim, 3 níveis de profundidade:
Jing - físico, a estrutura
Qi- Atenção/percepção ou Yi e Respiraçao
Shen - Consciência

  • Jing - Ao nível mais físico a preocupação é desenvolver a estrutura de forma a obter um bom enquilíbrio e a possibilitar ao corpo a melhor circulação de ene
    rgia possível. Desta forma a força da gravidade circula pelo corpo sem criar qualquer tipo de problema (dores de coluna, joelhos, etc). Em todo o trabalho de Qi gong e Tai ji, o trabalho sobre a postura corporal é fundamental. Para além de abrir portas ao trabalho energético é objectivamente benéfico para o bem estar e no cultivo da saúde. A este nível é fundamental sentir o peso bem distribuído pelos pés e manter todas as articulações (com especial atenção para a cintura e membros inferiores) livres de tensão. À medida que a postura se vai desenvolvendo e sedimentando, várias alterações são notadas pelo praticante… Desde a segurança ao andar, bem como uma sensação de maior proximidade com o chão são sentidas
  • Qi - Neste estágio intermédio elevamos o nosso trabalho para a respiração bem como para um estado físico mais alargado. A respiração abdominal (normal ou  invertida) leva o Qi para o abdómen inferior, levando-nos a obter um novo centro de gravidade (mais próximo do chão). Esta respiração promove também um maior desenvolvimento energético como ajuda a que a bacia se desbloqueie e desenvolva, permitindo que os membros inferiores se mantenham mais ligados ao corpo. É também a respiração uma forma de levar a nossa atenção/percepção para uma zona diferente do corpo chamando assim a nossa consciência a um novo ponto de referência bem distante da cabeça.
  • Shen - Neste momento já estamos a explorar toda a nossa consciência. Na realidade ela começa a desenvolver-se logo no primeiro passo, pois nenhum destes "3 níveis" está dissociado, mas é nesta fase que esse desenvolvimento se torna prioritário. Aqui, e com todas as restantes conquistas obtidas, queremos levar a nossa consciência a todo o corpo. Nesta fase, devemos manter a nossa mente focada no nosso corpo, na realidade! É fácil começar a imaginar, a sonhar… É mais fácil ainda deixarmos a nossa mente vaguear por sensações obtidas no corpo… As sensações são apenas acontecimentos temporários e menores de uma transformação interna! Ficarmos presos na sensação é ignorar o que está realmente a acontecer. Portanto a este nível outra das coisas que trabalhamos é o desprendimento, a capacidade de observar sem se ligar e de sentir sem com isto manter o querer… Aprender a apenas estar
Em suma, o enraizamento é todo um processo que nos acompanha na transformação interna. O enraizamento está mesmo, directamente ligado ao nosso crescimento e grau de consciência. Estes "3 níveis" são apenas uma forma de dissecar um processo e não forçosamente um método, pois em todo o processo tudo está envolvido.

Para terminar, o trabalho de enraizamento é muito mais que uma postura, ele pode ser feito no dia a dia, em pé sentado ou deitado, a trabalhar ou a descansar e em qualquer lugar. O trabalho sobre o enraizamento ensina-nos a estar presentes e as consequências vão muito para lá do plano meramente físico

terça-feira, 2 de outubro de 2018

O Dao e a minha caminhada alquímica - Post 01 O meu início

A vida vai-nos conduzindo, na maioria das vezes, sem que possamos dar conta disso sequer. Foi e continua a ser assim. Posso então dizer que a minha caminhada começou com o meu nascimento, mas essa foi inteiramente inconsciente.

Conscientemente a minha caminhada começou em 2002, quando ingressei no curso de Naturologia. Nessa altura não tinha qualquer tipo de pensamento filosófico, nem qualquer noção profunda sobre as artes orientais a não ser um conhecimento superficial sobre as artes marciais. Os anos de 2002 e 2003 tiveram um tremendo impacto em mim pois tomei conhecimento de um mundo que pensava apenas imaginário e fantasioso. Mergulhei na filosofia Chinesa e na prática de Qi gong. Embora a prática energética me tivesse fascinado não foi nessa altura que a aprofundei. Muito devido ao meu "mindset" foi a partir dessa altura que comecei a devorar todos os livros que exploravam a Medicina Chinesa, a filosofia Chinesa e em especial o Daoismo. Seguiram-se os anos e continuaram as leituras até que em determinada altura decidi começar a aplicar tudo o que havia aprendido do ponto de vista teórico.

PRÁTICA

Nessa altura já trabalhava em clínica com Acupunctura e comecei então a apreender a prática de Qi gong.
Durante vários anos a minha prática era intelectual e por isso desligada do meu corpo.
quero com isto dizer que eu fazia um exercício físico e, em simultâneo, pensava no que estava a fazer e tentava induzir determinados acontecimentos. Foram vários os ANOS em que isso aconteceu. A sensação não era especialmente prazerosa mas a verdade e que sentia resultados práticos, como maior serenidade, e flexibilidade articular.
Porque sou obstinado naquilo que faço, nunca abandonei completamente a minha prática.
Nesses anos uma das grandes evoluções que sofri foi a da respiração. Era-me impossível praticar respiração abdominal.

RESPIRAÇÃO

Nessa altura já tinha muita teoria sobre o assunto e então durante as minhas práticas, muita da minha atenção estava voltada para o desenvolvimento da respiração abdominal. Fazia sempre esforço para que o diafragma se soltasse. Por isso e outras coisas mais, não conseguia ter uma prática serena. Mas na realidade estava a construir bases para o futuro da minha prática. Nessa fase da minha vida sentia muitas vezes dor abdominal quando forçava a respiração e por vezes quebras de tensão, tal era o bloqueio no meu diafragma. 
Nessa fase da minha vida aprendi também alguns estilos de Qi gong como o estilo de Wu dang pelo qual me afeiçoei especialmente.

Posso dizer que os primeiros 10 anos de prática, sensivelmente, foram de desenvolvimento teórico e estrutural, sem eu ter tirado um proveito profundo daquilo que o Nei gong pode produzir. Estava longe de descobrir outros efeitos desta prática...



domingo, 16 de setembro de 2018

O Dao e a minha caminhada alquímica - Post 00

A partir de hoje, poderão acompanhar o meu percurso.
Decidi partilhar a minha caminhada por achar que pode ser útil a todos os que buscam o mesmo.

A partir de agora poderão acompanhar a todas as minhas publicações sobre este tema através da etiqueta " A minha experiência alquímica "

Estas publicações serão, inicialmente, uma retrospectiva do meu percurso até aos dias de hoje. Mais tarde as publicações estarão actualizadas com os dias actuais.


Antes da minha caminhada ocupar lugar, de forma consciente, eu vivia sonhando e imaginando.

Sempre tive crenças intrínsecas que nunca pude explicar, mas que simplesmente sentir.

Sempre vi o mundo de uma forma particular, sem que esta visão fosse entendida pelos meus familiares e amigos.

Durante a minha infância estava por vezes deslocado pois a minha mentalidade não encaixava na totalidade na dos meus amigos. Considero-me uma pessoa normal. E por isso nunca me senti completamente deslocado. Isso acontecia em determinadas situações. Lembro-me por exemplo que cada vez que tinha de interpretar um texto nas aulas, raramente a interpretação batia certo com a "versão correta". Para um jovem isso é um pouco chato pois somos vistos como tendo dificuldades aqui ou ali, quando na verdade somos apenas diferentes. Foram precisos muitos anos para eu entender que não há certo nem errado em muitas dos aspectos da nossa vida. Na realidade a riqueza da humanidade reside na capacidade de cada Ser ser único. É isso que nos faz evoluir e crescer em grupo. O problema é que a Sociedade tende a criar um padrão que retira a criatividade e liberdade de pensamento do indivíduo, "ensinando-o" a pensar da forma correcta.
Hoje vivo seguro de mim, consciente das minhas qualidades, bem como fragilidades. Mas essa descoberta ocorreu de forma solitária, pois ninguém me conseguiu ajudar nesse processo.

Partilho esta história pois penso não ser o único a viver e ter vivido algo do género. É muito importante escutarmos os outros, mas é fundamental escutarmo-nos! Isso diria mesmo é determinante naquilo que será a nossa vida. É a grande diferença entra a realização e uma vida frustrada. Apenas sabendo quem somos podemos determinar o nosso caminho. Seguir um caminho incutido por alguém, é como querermos ir às compras de olhos vendados. O mais certo é não conseguirmos.




Espero que as futuras publicações possam ser úteis.